Coalizão dos “não alinhados” V: Francisco Dornelles e a direita democrática do Progressistas


Coalizão dos “não alinhados” V: Francisco Dornelles e a direita democrática do Progressistas

Marcos Rehder Batista*

"Seguindo esses valores, princípios e crenças políticas, o PP orienta a sua ação programática com a convicção de que, para a consolidação do regime democrático no País, é necessária a existência de partidos políticos organizados e bem estruturados que garantam a legitimidade e a proporcionalidade da representação política, alicerçada no livre exercício, independente e consciente do voto secreto, na periodicidade dos mandatos, na rotatividade dos partidos no poder, respeitada a pluralidade doutrinária e ideológica."

Programa Partidário do Progressistas

O Partido Progressista e seus movimentos atuais

Uma das principais marcas do Partido Progressista é a forma como reorganiza e direciona o legado da antiga ARENA (e parte do antigo PSD, de Eurico Gaspar Dutra e Juscelino Kubitschek, extinto em 1965), progressivamente agregando uma série de forças conservadoras que se fragmentaram durante a década de 1980 em uma postura de direita democrática, conforme é detalhadamente descrito na área Nossa História, em seu site. Lá, descreve com bastante clareza como reaglutinou esse campo político, que ganhou nova forma ao apoiar o Governo Fernando Henrique Cardoso e oxigenou sua agenda programática nacional para pautas objetivas e públicas, cujo resultado pode ser conferido no razoável volume de publicações que debatem questões centrais da política nacional disponíveis na Fundação Francisco Dornelles, seu órgão de formulação e formação.

O trecho retirado do final da síntese de seu Programa Partidário, que abre o presente texto, reafirma que seus "valores, princípios e crenças políticas" (seis ao todo, que discutirei na próxima seção) trazem uma visão conservadora totalmente afeita a elementos básicos que conduzem ao aprimoramento da qualidade da democracia e à "consolidação do regime democrático no País", como um sistema partidário sólido, capaz de refletir a representatividade de nossa sociedade plural, e a importância da alternância de poder. Só isso já aponta que o Progressistas defende a garantia de que os partidos tenham voz no Legislativo e nas esferas estadual e municipal, capacidade de cooperação e contestação, independentemente de quem vença o Executivo federal, sendo possível caracterizá-lo facilmente dentro do que está sendo chamado de partido "não alinhado", inclusive quando compõe o corpo de ministros de um governo específico. Em outras palavras, mesmo estabelecendo aliança com quem ocupe o Poder Executivo, considera legítimo expor críticas programáticas e sugerir mudanças em suas propostas.

A partir dessas orientações, o Progressistas nunca deixou de ter alta representatividade no Congresso, sempre ocupou espaços na Esplanada dos Ministérios, sempre venceu eleições estaduais e municipais, atualmente figurando entre as principais forças eleitorais do país. Nas eleições de 2022, o Progressistas elegeu 47 deputados federais (em 2018 foram 37), 3 senadores (somando o atual número de 8, com os que já estavam na casa), 2 governadores (hoje são 3), 87 deputados estaduais (hoje são 85). Já nas eleições municipais de 2024, elegeu 752 prefeitos (em uma ascendente desde 2012) e 6.953 vereadores (neste quesito, apenas foi superado pelo MDB). Considerando que ocupou ministérios em todas as presidências após a redemocratização, inclusive com os presidentes Bolsonaro e Lula, sua presença em todos os níveis da Federação atesta o protagonismo político do partido e sua capacidade de buscar consensos de impacto em todas as dimensões de nossa democracia, assim como os demais partidos já tratados nesta série, Coalizão dos "não alinhados" (MDB, PSD e União Brasil).

Aliás, o tamanho de sua legitimidade popular conquistada nas urnas ganha ainda mais peso quando forma uma federação com o União Brasil, a União Progressista (UP), protocolada no ano passado e ratificada pelo TSE em março deste ano. Essa união entre os partidos é concebida aqui como um estágio anterior à forma como a pesquisa do Grupo de Estudos Legislativos – LEGIS (UFBA), utilizada como fonte no último texto deste projeto, estuda as fusões partidárias. Esse trabalho, apresentado por Alice Barreto Santos, Carla Galvão Pereira e Roberta Resende, está totalmente alinhado às referências teóricas deste projeto, que trata dos oito partidos do Bloco Parlamentar MDB, PSD, União Brasil, PP, Republicanos, Podemos, Cidadania e PSDB, dado que Resende foi doutoranda de Silvana Krause e parte da interpretação de Paulo Sérgio Peres sobre a sociologia dos partidos políticos de Maurice Duverger. Conforme os dados apresentados no artigo Coalizão dos "não alinhados" IV, no momento da ratificação pela Justiça Eleitoral, a Federação agregava 21% dos deputados federais, 18% dos senadores, 22% dos governadores e 25% dos prefeitos brasileiros. Ou seja, mesmo considerando que alguns parlamentares se desfiliaram em virtude da institucionalização dessa Federação, mais de um quinto da legitimidade popular da política brasileira responde a ela (em escala local, estamos falando de aproximadamente um quarto).

Na sequência, será feita uma descrição da proposta programática do Progressistas para, depois, apresentar as principais pautas apontadas no Manifesto da Federação União Progressista, lançado no ano passado, comparando o que o partido propõe com as convergências formadas para a união entre as duas legendas. Na penúltima seção, serão analisadas as características gerais da atuação da Fundação Francisco Dornelles no que se refere ao Desenvolvimento Econômico Sustentável, sua rede de relações institucionais e suas funções elementares, como publicações e cursos de formação, conforme o recorte metodológico para o estudo de Fundações Partidárias descrito na introdução desta série, baseado no trabalho de Ivan Filipe Fernandes (UFABC) e Humberto Dantas (FGV/FIPE). Por fim, será apresentado um balanço geral sobre a relevância da rearticulação das principais forças originárias da ARENA, amadurecidas, ao longo do tempo, para a cooperação — e também para a contestação programática — com governos democráticos.

 

A agenda do Partido Progressista e seu ambiente de formação

Sem perder de vista que este projeto tem como objeto central as atividades das Fundações Partidárias — principalmente no que se refere à formulação e à difusão das respectivas agendas programáticas —, é preciso destacar a consistência especial do conteúdo apresentado no site do Progressistas. Assim como nos partidos abordados anteriormente, as informações da página e as da Fundação Francisco Dornelles se complementam, de modo que, mesmo em uma leitura preliminar como esta que se propõe aqui, essa conexão é primordial. Por isso, concentraremo-nos em três conteúdos específicos do site do PP: a seção que trata de sua história, onde em grande parte coincide com a reconstituição feita na pesquisa do LEGIS (UFBA); a seção que sintetiza o Programa Partidário em seis "valores, princípios e crenças políticas"; e a "Agenda Central", aprovada pelas bancadas da Câmara e do Senado em 2023, que apontava a medida na qual o partido se relacionaria com a agenda pública e com o Governo Federal.

Em sua página oficial existe uma área específica sobre "O Partido", onde constam sua história, seu programa, sua agenda atual e as deliberações mais recentes. Nela, informa-se que sua origem histórica decorre da desagregação, após o fim do regime militar, dos setores que compunham o antigo PDS, sendo que um de seus principais grupos fundou o PFL (atual União Brasil), que se aliou ao MDB e apoiou a candidatura de Tancredo Neves contra Paulo Maluf em 1985. O realinhamento dos setores conservadores moderados ganhou força ancorado na estruturação e no fortalecimento do Plano Real, levando à fusão do PDS com o Partido Democrata Cristão, em 1993, e com o Partido Progressista (que já era formado por fusões de partidos menores de centro-direita), em 1995, dando origem ao Partido Progressista Brasileiro (PPB). Terminado o ciclo FHC, o partido passou por uma adaptação interna, resgatando um viés nacional-desenvolvimentista (marca do regime militar durante os anos 1970, que apoiou), capaz de dialogar com o social-desenvolvimentismo que marcou os governos subsequentes, retirando o "B" de sua sigla e permanecendo como Partido Progressista (PP), ou simplesmente Progressistas, até os dias de hoje.

Nesse sentido, o Progressistas assume, em seu Programa Partidário, como compromisso político, o esforço para o fortalecimento de "uma sociedade baseada na dignidade humana, e que seja justa, livre, democrática, pluralista, solidária e participativa", colocando-se como um partido disposto a cooperar com as propostas de outras forças — tanto do Legislativo quanto do Executivo federal e dos demais entes da Federação — sem perder a independência que lhe permite contestar os pontos em que diverge, a partir de um viés conservador moderado (ou de centro-direita). Esse posicionamento enfrentou um desafio com a ascensão da direita populista, que governou o Brasil entre 2019 e o final de 2022, da qual participou, o que exigiu um novo documento que esclarecesse seus posicionamentos diante do retorno do social-desenvolvimentismo ao Poder Executivo, divulgado em setembro de 2023.

Intitulada Agenda Central: valores pétreos, a resolução reuniu critérios considerados inegociáveis para a participação do partido na gestão federal de 2023 a 2026, período em que ocupou ministérios e diretorias de estatais. Aprovada por seus representantes no Congresso Nacional e debatida por integrantes de seu diretório, reafirma publicamente pautar-se por critérios de eficiência na burocracia pública, além de ressaltar sua rejeição ao aumento de impostos, a valorização da família e da vida "desde sua concepção" e o combate à descriminalização das drogas. É possível identificar a coerência entre os seis princípios e valores que orientam o partido, apresentados logo abaixo, e as onze proposições de 2023, da seguinte forma:

  • Princípio I (objetivos nacionais) busca do ideário democrático e dos objetivos nacionalistas para o desenvolvimento econômico com igualdade de oportunidades. Correspondência no documento de 2023: 1. Respeito à Constituição Federal e Segurança Jurídica.
  • Princípio II (liberdades e políticas finalísticas) garantia da liberdade religiosa e de imprensa, privacidade, moradia, educação, saúde, segurança e preservação ambiental. Correspondência: 3. Investimentos e valorização dos profissionais da Saúde e da Educação; 10. Liberdade Religiosa, Valorização da Família e da Vida; 11. Segurança Pública, combate às drogas (contra a legalização) e à corrupção.
  • Princípio III (estabilidade federativa) – intangibilidade da Federação, harmonia entre os Poderes e autonomia dos estados e municípios. Correspondência: 2. Políticas fiscais equilibradas e combate ao aumento de impostos (incluindo o imposto sindical e a descentralização).
  • Princípio IV (liberalismo microeconômico) – sistema econômico livre, que favoreça a prática das regras de mercado, visando ao bem-estar e à eliminação das desigualdades sociais. Correspondência: 4. Liberdade Econômica e Direitos de Propriedade; 5. Eficiência no Gasto Público e Gestão Profissional das Estatais, por serem condições fundamentais para a efetividade da interface entre agentes públicos e privados.
  • Princípio V (economia social de mercado) – ação econômica do Estado orientada por valores sociais, com distribuição de riquezas e geração de empregos, renda, poupança e consumo. Correspondência: 6. Investimento em Infraestrutura e Desenvolvimento Sustentável; 7. Valorização do Turismo e da Cultura Brasileira; 8. Proteção Social e Inclusão.
  • Princípio VI (adaptabilidade) – permanente adaptação ao processo de mudança social, econômica e da dinâmica federativa. Correspondência: 9. Inovação, Flexibilidade Laboral e Política Externa.

Em suma, é possível encontrar coerência entre os princípios e valores do Progressistas e sua agenda de colaboração com o Governo Federal, embora seja perceptível uma aproximação recente com pautas que o caracterizam menos como um partido de centro-direita e mais próximo de uma direita tradicional que opera dentro dos princípios democráticos. Também se percebe em sua agenda um viés desenvolvimentista mais acentuado do que aquele encontrado no programa do União Brasil, marcadamente mais liberal e menos afeito ao investimento estatal como âncora para setores estratégicos. O liberalismo do Progressistas manifesta-se sobretudo no plano microeconômico, mas, por outro lado, atribui maior importância às políticas redistributivas; no União Brasil, o liberalismo aparece de forma mais difusa, inclusive no campo macroeconômico. De qualquer forma, a defesa comum do direito de propriedade, da livre iniciativa e da redução da carga tributária, entendidos como fatores fundamentais para a retomada do crescimento econômico, constitui importante ponte para o aperfeiçoamento do diálogo entre ambos, elemento essencial para o êxito da recente Federação entre os dois principais herdeiros da direita pré-1980.

 

A Federação União Progressista: por um "Choque de Prosperidade"

A parceria político-eleitoral entre o antigo DEM e o Progressistas vem sendo costurada com maior afinco desde 2021, quando primeiro se cogitou a inclusão do PP na fusão que resultou no União Brasil e, no ano seguinte, fez-se uma primeira tentativa de articulação para a formação de uma Federação. Apesar de a fusão não ter ocorrido, objeto central do já mencionado estudo da UFBA, pode-se pensar as federações como ensaios para tal, pois, embora os partidos que as compõem mantenham independência organizacional e orçamentária (e, com isso, suas fundações de formulação e formação permaneçam independentes), nos processos eleitorais e nas votações legislativas comportam-se como um único partido.

As autoras postulam que as interpretações tradicionais de Duverger e Panebianco seriam insuficientes para o estudo das fusões, mesmo entre legendas de origens semelhantes, inspirando-se na alternativa de análise econômico-evolucionária proposta por Paulo Sérgio Peres para a releitura desses dois clássicos dos estudos partidários. Os critérios de análise para o surgimento dos partidos (inclusive por meio de fusões) a que Alice Barreto Santos, Carla Galvão Pereira e Roberta Resende chegaram, após essa discussão teórica, foram os seguintes:

  • modo como a organização foi construída: penetração (provocada) ou difusão (espontânea);
  • presença ou ausência de uma organização externa patrocinadora; e
  • caráter carismático da liderança durante o período de formação.

Levando em consideração a mesma origem histórica, somada aos mesmos dilemas de relacionamento com diferentes administrações federais, chega-se à conclusão de que a Federação União Progressista é resultado de um processo de "difusão", pois essas forças se organizaram ao longo de um processo histórico espontâneo, independente de arranjos que jamais as distanciaram diametralmente (ao menos em nível nacional) e que hoje as colocam em posições praticamente idênticas. Trata-se, em grande medida, de uma formalização.

Não diria que exista uma "organização externa patrocinadora". Talvez a motivação esteja na necessidade de manter uma boa relação com a burocracia pública, independentemente de quem ocupe o Poder Executivo, para viabilizar as várias demandas regionais, ou ainda na influência de setores que têm forte presença no partido, como o agronegócio. Soma-se a isso o peso político que faz com que qualquer presidente da República tenha de dialogar com esse campo programático. Em todo caso, não existe "uma força por trás" desse processo: trata-se de forças independentes, e isso é bastante claro.

Há, sim, uma liderança que, ao longo de décadas, foi responsável pela capacidade de criar convergências entre diferentes campos políticos: Francisco Dornelles, que hoje dá nome à Fundação Partidária. Sobre ele trataremos na penúltima seção deste texto. Em todo caso, trata-se de um intelectual orgânico que, antes mesmo da existência da ARENA, já havia trabalhado com diferentes matizes ideológicas. Não se trata, entretanto, de uma liderança carismática no sentido weberiano. Guardadas as pequenas diferenças entre as agendas dos dois partidos, o Manifesto que orienta sua atuação conjunta, divulgado em abril de 2025, propõe o resgate daquilo que denomina "boa política", entendida como a arte de construir soluções e consensos, sobretudo em conjunturas que ameaçam tornar remota ou improvável a superação dos principais desafios nacionais.

O documento sustenta que o maior gargalo enfrentado pelo Brasil concentra-se na retomada do crescimento econômico, cuja estagnação prolongada teria contribuído para o aumento da desconfiança em relação à democracia. Por isso, defende um "Choque de Prosperidade", ancorado em quatro eixos fundamentais:

  • “medidas profundas no campo econômico e regulatório, que coloquem o Brasil em linha de competitividade com as nações mais eficientes do mundo”
  • “Reforma Modernizadora do Estado [que promova] a inovação, com o uso intensivo e extensivo de fórmulas avançadas de tecnologia de gestão; repensar a dimensão dos entes estatais; e revisitar a estrutura de cada um dos poderes”
  • Ação do Estado focada na “promoção da saúde da nossa gente, na educação que transformará o destino dos jovens e impulsionará a produtividade do país, na segurança e no combate à violência que hoje atemoriza as famílias de todas as classes, e na assistência social aos vulneráveis”
  • Cabe ao Estado também agir “como indutor do desenvolvimento, e o capital privado, doméstico e estrangeiro, como motor do crescimento, com protagonismo central na criação de emprego e renda.”

Em síntese, o Manifesto atribui protagonismo a uma estratégia de desenvolvimento sustentável que combine responsabilidade fiscal e responsabilidade social, dedicando relativamente pouca atenção à agenda conservadora de costumes presente nos programas dos dois partidos. O documento concentra-se, essencialmente, na forma de ampliar o crescimento econômico e distribuir seus benefícios. Não rejeita a ação estatal como indutora do desenvolvimento, seja por meio da desburocratização, seja por meio do investimento público, mas enfatiza que essa atuação deve ser orientada por critérios de eficiência, eficácia e efetividade.

Naturalmente, trata-se de um Manifesto, e não de um programa detalhado de governo. Estamos diante de diretrizes gerais e intenções políticas. Ainda assim, o foco em questões econômicas e gerenciais indica uma agenda bastante objetiva que, caso venha a ser implementada, poderá contribuir significativamente, independentemente de quem esteja à frente do Governo Federal a partir de 2027. Nesse sentido, o documento também pode servir de inspiração para candidatos ao Legislativo e aos governos estaduais.

De qualquer forma, como foi apresentado no início desta seção, os partidos permanecem independentes do ponto de vista organizacional e programático. O que foi exposto acima corresponde apenas aos pontos que aproximam essas duas siglas. Assim como foi feito com o União Brasil no artigo anterior desta série, a seção seguinte examinará as características gerais da Fundação Francisco Dornelles, órgão de formulação e formação do Progressistas, tanto sob a perspectiva estatutária quanto em relação às funções que se espera desempenhe, como publicações periódicas e cursos de formação política.

 

A Fundação Francisco Dornelles

Seu papel no Progressistas e seus órgãos setoriais

Trata-se de um dos órgãos de formulação e formação partidária mais antigos do país, fundado em 1975, ainda tendo como referência a ARENA. Seu primeiro estatuto foi apresentado em 1976, sob a presidência do pernambucano e ex-vice-presidente da República Marco Maciel. Até 2024, chamava-se Fundação Milton Campos, em homenagem ao jurista mineiro falecido em 1972, que, como político, elegeu-se governador de Minas Gerais pela UDN, com apoio de setores da esquerda e do antigo PSD, de Juscelino Kubitschek, para quem contribuiu na captação de recursos destinados ao Plano de Recuperação Econômica e de Fomento da Produção. Campos defendia uma política desenvolvimentista que não abrisse mão do equilíbrio fiscal, característica que, como visto anteriormente, permanece como uma das pedras angulares da agenda do Progressistas. Com o falecimento de Francisco Dornelles, em 2023, o órgão de pesquisa foi renomeado como Fundação Francisco Dornelles. Jurista especializado em finanças públicas e tributação, iniciou sua atuação política ao lado de Tancredo Neves, no PTB, ainda na década de 1950, ingressando posteriormente na ARENA. Foi ministro da Fazenda no governo José Sarney, da Indústria e Comércio e, posteriormente, do Trabalho, durante a presidência de Fernando Henrique Cardoso. Também apoiou e participou da articulação para que seu partido integrasse a base do segundo governo Lula, quando o PP voltou a ocupar ministérios. Em razão desse perfil conciliador e de seu  trânsito por boa parte da arena política nacional, era presidente de honra da legenda quando faleceu. Em suma, embora o Progressistas seja uma força política de direita, teve como principais referências lideranças capazes de dialogar e construir consensos também com setores de centro-esquerda e até mesmo da esquerda tradicional.

Como vem sendo feito para todos os oito partidos do Bloco Parlamentar (MDB, PSD, União Brasil, Progressistas, Republicanos, Podemos, PSDB e Cidadania), segue uma descrição dos oito critérios propostos por Fernandes e Dantas, apresentados na introdução desta série Coalizão dos "não alinhados". Esses critérios subdividem-se em A. Critérios Estruturais (i. áreas temáticas prioritárias; ii. atuação em rede com outras instituições) e B. Pesquisa, Divulgação e Formação (i. Pesquisa; ii. Eventos; iii. Publicações; iv. Formação; v. Arquivos de memória; vi. Mídia e Tecnologia).

 

A. Critérios Estruturais

Assim como o MDB, e diferentemente do PSD e do União Brasil, o Progressistas não está formalmente vinculado a nenhuma organização internacional e estabelece sua rede de colaboração institucional principalmente por meio de articulações de Estado, como a Frente Parlamentar da Agropecuária. Também firma parcerias em atividades de formação política com instituições de perfil acadêmico não vinculadas a partidos, como o Centro de Liderança Pública (CLP), e com movimentos multipartidários, como o Renova BR.

Quanto aos órgãos partidários internos voltados para temas específicos, seu estatuto prevê seis movimentos: Trabalhistas, Rurais, Servidores Públicos, Juventude (até 35 anos), Mulheres e Afrodescendentes. Todos possuem representação na Executiva Nacional e os três últimos contam com áreas específicas no site do partido. As demais agendas também encontram correspondência ao longo da história da legenda, especialmente na atuação ministerial e na formulação de políticas públicas voltadas aos respectivos setores. Essas temáticas também aparecem no expressivo volume de publicações da Fundação, que promove debates sobre diversos temas do debate público, especialmente relacionados às questões econômicas.

 

B. Pesquisa, Divulgação e Formação

Conforme pode ser conferido abaixo, a Fundação Francisco Dornelles executa todas as funções básicas consideradas neste projeto. Apresenta conteúdo aberto, e boa parte de seus eventos foram transmitidos na internet. Seguem os 6 critérios:

  1. Pesquisa (atividades de pesquisa apoiadas): se, de fato, não constam pesquisas de caráter acadêmicos no site da “Fundação”, podemos considerar as várias cartilhas e manuais sobre gestão pública e elaboração de plano de governo modalidades diferentes de debates nacionais e seminários temáticos, são documentos metodológicos, e por isso, mais próximos dos de pesquisa; há também publicações mais robustas em termos científicos, como a recente O Algorítimo do Poder;
  2. Eventos, Seminários e Congressos (eventos com pesquisadores e lideranças — políticas e civis — tratando de temas que “tenham afinidade com seus valores e missão”): além de eventos recentes sobre questões nacionais, gerais e setoriais (como segurança pública), o Progressistas costuma organizar eventos específicos em seus movimentos, como no Mulheres Progressistas, Jovens e Afrodescendentes (este, principalmente nos diretórios estaduais). Um ciclo de palestras que dá uma boa ideia da agenda do PP para o Brasil foi o Fórum Brasileiro de Inteligência Artificial, organizado em 2023 pela sua “Fundação” de formulação e formação, que reuniu 10 mesas de discussão sobre como as mais variadas áreas (e suas respectivas políticas públicas) são impactadas pela revolução digital, de mobilidade urbana e educação ao agronegócio;
  3. Publicações (revistas, relatórios de formulação e newsletters com os resultados das pesquisas e eventos): conta com um boletim informativo com mais de uma publicação por semana, que aborda temas variados, desde atuação legislativa e cenário político do momento até como adequar linguagem técnica ao público comum. A mais robusta publicação periódica da Fundação é a mensal Conexão Dornelles, onde os principais temas do debate público são abordadas mais detalhadamente;
  4. Formação (cursos e programas de formação para suas lideranças e/ou cidadãos em geral, sobre os conjuntos de doutrinas orientadoras do partido e boas práticas de gestão/governança): a Fundação Francisco Dornelles tem uma área específica para cursos de formação, a Escola Virtual, cujo acesso exige apenas cadastro (livre para todos). Lá oferece cursos sobre campanha virtual, cenário e conjuntura eleitoral 2026, bastante focado na relação com a sociedade e em sua atual agenda partidária. Uma contribuição também importante é o curso Tendências e Desafios do Futuro da Gestão Pública, que traz noções fundamentais de gestão e governança para a implementação de suas propostas, em qualquer nível federativo;
  5. Arquivos de memória (acervos organizados sobre o histórico da instituição, proposições de lideranças do partido e/ou sobre as trajetórias destas personalidades simbólicas): apesar de não trazer exatamente um arquivo de memórias, que seria riquíssimo, pois é herdeiro direto de forças já organizadas antes dos ano 1970, a tem um link contando sua história e a de seu patrono, e o partido descreve detalhadamente sua evolução desde a reabertura democrática;
  6. Mídia e tecnologia (ferramentas digitais que permitam acesso aos conteúdos anteriores, como “esforço de comunicação e difusão”, concretizando conexão com filiados e sociedade em geral): além dos já citados cursos, eventos e materiais disponíveis na internet promovidos pela “Fundação”, ele divulga suas ações e opiniões de suas lideranças em seus canais no Instagram, X (antigo Twitter), Facebook e YouTube.

Em síntese, o Progressistas organiza de maneira consistente atividades de formulação, divulgação e educação política, oferecendo canais que tornam pública sua agenda programática e favorecem o debate na esfera pública. Sua rede de interlocução externa estrutura-se predominantemente nas relações institucionais de Estado e, pontualmente, em parcerias para atividades de formação, sem vinculação formal a organizações multipartidárias internacionais, além da recente Federação União Progressista. Também há atenção às agendas de grupos historicamente sub-representados, especialmente mulheres, jovens e afrodescendentes. Talvez pudesse ampliar ainda mais sua interlocução com pesquisadores e professores dos grandes centros universitários, muitos deles próximos de seu campo político, como era o próprio Francisco Dornelles. Ainda assim, apresenta um programa consistente e disponibiliza ampla quantidade de materiais sobre temas centrais da política nacional, cumprindo de maneira satisfatória sua função de formular propostas e difundi-las entre filiados e sociedade.


Conclusões: a importância da reaglutinação da centro-direita "não alinhada"

O movimento representado pelo Progressistas parece encontrar em Francisco Dornelles sua melhor síntese. Ao longo de sua trajetória política, atuou junto aos principais campos políticos brasileiros, sem abandonar um posicionamento conservador sólido, associado a um legado desenvolvimentista que concilia responsabilidade fiscal, eficiência administrativa e atuação estratégica do Estado. Esse viés está presente tanto nas propostas reafirmadas em 2023 quanto nos conteúdos disponibilizados pelo partido e por sua Fundação.

Existem muitos pontos de convergência entre os programas que compõem a recém-criada Federação União Progressista; outros são complementares; e há também diferenças que, em vez de constituírem obstáculos, podem representar alternativas de adaptação conforme os diferentes arranjos políticos futuros. O reencontro dessas duas tradições políticas, originárias de um mesmo tronco partidário há cerca de cinco décadas, contribui para tornar mais claro o atual sistema partidário brasileiro. Tudo indica que essa aproximação ampliará ainda mais sua capacidade de interlocução e construção de consensos, marca característica dessa centro-direita amadurecida ao longo da Nova República.

Por ter demonstrado, na história recente, capacidade de colaborar de forma independente com diferentes governos e em distintas esferas federativas — inclusive liderando algumas delas —, torna-se particularmente relevante compreender aquilo que, para esse campo político, é negociável, em que medida o é e, sobretudo, aquilo que considera inegociável. Assim como MDB, PSD e União Brasil, o Progressistas possui enorme capilaridade e legitimidade em todo o território nacional, acumulando experiência concreta sobre a implementação de políticas públicas e sistemas federativos de grande complexidade, como o SUS. Espero que este breve esboço possa oferecer uma pequena contribuição para a compreensão dessa importante força política.

Até o próximo! 

Marcos Rehder Batista, pesquisador do CEAPG - FGV e do CPTEn - Unicamp, foi coordenador de Formação e coordenador-adjunto de Articulação Política do Direitos Já! Fórum pela Democracia.

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