Coalizão dos “não alinhados” I: entre a cooperação e a “contestação pública”
Coalizão
dos “não alinhados” I: entre a cooperação e a “contestação pública”
Marcos
Rehder Batista, CEAPG (EAESP-FGV) e CPTEn (FEEC-Unicamp)
Nesta
semana começo uma série sobre as propostas e linhas programáticas desenvolvidas
pelos partidos brasileiros, semanalmente trazendo uma análise do que vem sendo
defendido e difundido em suas Fundações Partidárias, principalmente em torno de
2 temas específicos: Governança Pública e Desenvolvimento Econômico
Sustentável. Trata-se de uma tentativa de contribuir para uma melhor
compreensão de nossa arena política e das propostas que serão trazidas ao
debate público neste ano de disputa eleitoral. Como forma de apresentá-los de
modo organizado, ao longo dos próximos 6 meses eles serão divididos conforme se
agrupam em Blocos Parlamentares na Câmara, Federações e posicionamento em
relação ao Poder Executivo. Nos primeiros meses serão tratados em particular e,
na medida em que o Primeiro Turno das eleições de 2026 se aproximar, serão
abordados temas mais gerais sobre como estes órgãos de formulação e formação
são regulamentados e diretrizes mais atuais do TSE sobre como devem atuar,
porque o objetivo é falar sobre os partidos o mais longe possível do calor das
urnas, em um ambiente menos radicalizado.
Neste
texto apresento as referências da ciência política brasileira que irão orientar
as análises e o primeiro conjunto a ser discutido, a Coalizão dos “não
alinhados”, formalizada na Câmara dos Deputados no Bloco
Parlamentar União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, Federação PSDB –
Cidadania e Podemos, que, até a janela partidária, agrega 276 deputados
(maioria absoluta) e que nitidamente mais desafia os analistas e articuladores:
os partidos que se mantêm “não alinhados” incondicionalmente a nenhum dos
polos, mas apresentam forte articulação entre si. Serão os primeiros
precisamente porque ou tiveram ministros nos 2 últimos governos (os 5 primeiros
partidos) ou em nenhum (os 3 últimos), e nele não estão nem o atual líder do governo,
nem o da oposição, mas conta com o presidente da Câmara. Deste modo, os 10
primeiros artigos tratarão deste espectro independente, e o restante desta
apresentação traz os parâmetros dentro dos quais ele é visto como um conjunto
integrado dentro de nosso sistema partidário, ocupando seu centro.
A
partir da observação de como organizações suprapartidárias
concebem boas práticas de gestão pública, tenho observado o papel crucial
destas legendas na conformação de nossas políticas públicas dentro de uma
conjuntura de embate polarizado. Comecei a falar especificamente sobre isso em
um artigo publicado na Revista
Será?, quando passei a usar o termo “não alinhados”, inspirado em estudo
desenvolvido no Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídias
– LEPEM (Univ. Federal do Ceará), publicado por Gabriella Bezerra e Márcia
Vieira em 2022, onde elas propõem uma abordagem mais profunda destes partidos
que nunca aderem ou se opõem radicalmente ao Poder Executivo, estabelecem
estratégias para que suas sugestões sejam incluídas em projetos de políticas
públicas e, em algumas oportunidades, se articulam em um projeto próprio de
país.
Apesar
de recorrerem a uma abordagem distinta em vários aspectos, o estudo do LEPEM é
uma continuidade da pesquisa de doutorado de Gabriella Bezerra, no programa de
pós-graduação em Ciência Política da UFRGS, sob orientação de Paulo Sérgio
Peres. Ela estudou a importância e os diferentes tipos de oposição parlamentar
ao Poder Executivo, em seus posicionamentos, mecanismos de coalizão e de ação.
A pesquisa no Rio Grande do Sul aconteceu imersa no ambiente do projeto Partidos
e sistema partidário na nova democracia brasileira, coordenado em nível
nacional por Silvana Krause (UFRGS), que, como Peres (também integrante do
projeto), se inspira no neoinstitucionalismo evolucionário para entender
o sistema partidário como uma arena competitiva, em que as lideranças políticas
nacionais atendem tanto a diretrizes internas quanto a particularidades
regionais e setoriais (de onde de fato vêm os votos, onde estão os
representados por elas e fonte da força de uma legenda). Deste modo, um partido
deixa de ser apenas um agregado de identidades e passa a ser concebido também
como um instrumento para os eleitores usarem como referência para escolher
quais conjuntos de políticas públicas atendem melhor aos seus interesses; é
neste aspecto que entra a importância em conhecer o que propõem os órgãos de
formação e formulação, as Fundações Partidárias.
Entendidos
dentro desta abordagem, os partidos “não alinhados” caracterizam-se por, em sua
maioria, terem alta representatividade em todas as esferas: nos ministérios, na
Câmara e no Senado, além de liderarem vários governos estaduais e municipais, e
também um grande número de deputados estaduais e vereadores. Para que suas
lideranças no Congresso contribuam para o fortalecimento de seus partidos,
precisam corresponder às demandas de suas regiões e, dada a heterogeneidade de
nossa sociedade, frequentemente apresentam igual heterogeneidade em seus votos
no parlamento, e isso não acarreta falta de comprometimento com a sigla; muito
pelo contrário, pois a prioridade pode ser manter a representatividade na base
da sociedade. Pensar este universo político a partir de Bezerra e Vieira, à luz
da abordagem compartilhada por Krause e Peres, traz tanto a discussão para uma
tradição consolidada na ciência política quanto leva a uma leitura destas
forças que vai além da rasa identificação como “em cima do muro” ou como
“Centrão”, conceito tomado por referência pelas autoras do artigo de 2022
exatamente para desconstruir a percepção de que não oferecem proposta; eles
têm, e muitas, e estão em suas “Fundações”.
Um
dos principais estudiosos de organizações de formulação e formação política,
Humberto Dantas (FGV e FIPE), que também integra o projeto “Partidos e
sistema partidário”, apresentou com Ivan Filipe Fernandes (UFABC) um dos
mais influentes frameworks para análise destes órgãos no VIII
Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política – ABCP (2012). Em
outro trabalho, a própria Silvana Krause destaca a destinação obrigatória de
20% dos recursos do Fundo Partidário para as “Fundações”, em um estudo
em coautoria com Bruno Schaefer, publicado em um livro sobre o papel dos
partidos com as atuais regras partidárias, organizado pelo Tribunal Superior
Eleitoral em 2022, o que constata o papel de destaque no cenário político dado
a estes órgãos: junto à obrigatoriedade de 5% para ações de inclusão feminina,
é das poucas regulamentações precisas sobre o uso dos recursos para o
financiamento partidário.
Os critérios estabelecidos por Fernandes e Dantas, a serem sintetizados ao final deste texto, nortearão a forma de abordar as “Fundações” dos partidos. Como 2 dos 8 partidos do “Bloco” já foram tratados em artigos que também publiquei na Revista Será?, MDB e PSD, falarei deles primeiro, e nas semanas seguintes tratarei dos demais; os outros 3 que também participaram dos 2 últimos governos (Republicanos, União Brasil e Progressistas), fechando com os 3 que não participaram das administrações bolsonarista e petista (PSDB, Cidadania e Podemos). Repetindo, a ordem será a seguinte:
- Esta introdução à Série “Coalizão dos não alinhados”
- MDB: Fundação Ulysses Guimarães
- PSD: Fundação Espaço Democrático
- União Brasil: Fundação Índigo
- PP
– Progressistas: Fundação Francisco Dornelles
- Republicanos: Fundação Republicana Brasileira
- PSDB: Instituto
Teotônio Vilela
- Cidadania: Fundação
Astrogildo Pereira
- Podemos: Fundação
Podemos
- Balanço da Série
“Coalizão dos não alinhados” e sobre as referências aqui mencionadas
Antes
da apresentação dos pontos-chave da abordagem na ciência política proposta por
Krause e Peres e dos critérios para análise das Fundações sugeridos por
Fernandes e Dantas, na próxima seção trago uma breve contextualização do atual
Bloco Parlamentar “não alinhado” e alguns pontos centrais sobre sua relevância
para a análise política da esfera pública nacional. Em maior ou menor medida,
todos os partidos altamente representados simultaneamente em Brasília e nas
esferas locais enfrentam os trade-offs aqui levantados, e começar esta
reflexão a partir destes casos-limite pode ajudar tanto a pensar este perfil de
força política quanto os outros que também se enquadram entre os partidos mais
representativos do Brasil.
O
“Bloco” dos “não alinhados”
Na
Câmara dos Deputados, os partidos formalmente se dirigem à presidência por meio
de representantes eleitos internamente, que variam conforme a situação: há
líderes dos partidos, que podem se agregar em Blocos Parlamentares e elegem um
líder para representá-los. Apontando este como o principal instrumento de
formalização das “oposições”, no Cap. 3 de sua tese Gabriella Bezerra
indica que geralmente estes “Blocos” se agregam em “maioria” (frequentemente
formada pelos governistas) e “minoria” (composta pela oposição), esta última
tendo à mão mecanismos para accountability e empenhar esforços para ter
algum tipo de influência sobre as políticas orientadas pelo Poder Executivo.
Este princípio de agir em grupo também incentiva a ação em conjunto dentro do
grupo majoritário, na disputa por cargos e também por recursos. Estes “Blocos”
são coalizões de forças com interesses convergentes para, assim, pressionar em
favor de suas demandas (projetos de lei, recursos, postos decisórios na mesa
diretora ou comissões etc.). É o resultado final deste conjunto de agregações
que tende a levar à formação da Maioria e da Minoria, pressupondo a tendência
de formação de duas forças antagônicas: apoiadores do presidente da Câmara e/ou
da República e seus opositores.
Como
já foi dito, o Bloco
Parlamentar União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, Federação PSDB –
Cidadania e Podemos reúne partidos que ou participaram dos governos Bolsonaro e
Lula ou de nenhum deles. Originou-se de uma regeneração do bloco formado para a
eleição de Hugo Motta para a presidência da Câmara, que inicialmente reunia 17
partidos (do PT ao PL), e aos poucos foi sendo esvaziado por naturalmente não
corresponder aos anseios nem de apoiadores do governo, nem aos da oposição. Os
8 partidos rearticulados reúniram 276 deputados (54% do total), não estão
totalmente alinhados dentro da polarização: têm mais representantes que os
aliados do PT e do PL juntos! Não incluem os partidos da liderança do governo
nem da oposição!
Exige
uma visão ampliada do processo, indo além da ideia de que ou o governo possui
maioria para manter sua estabilidade, ou a oposição a consegue para derrubar o
governo. Assim como o grupo que apoiou Motta se dissolveu, uma hora o mesmo
pode acontecer com o atual “Bloco” dos “não alinhados”, mas, como fotografia do
momento (diga-se de passagem, do momento pré-eleitoral…), esta conjuntura
subverte a tradicional categorização feita pela maioria absoluta dos estudos
parlamentares, que pensa apenas nos apoiadores do governo e os que pretendem
tomar o seu lugar. É neste ponto que ganha relevância o estudo feito por
Gabriella Bezerra e Márcia Vieira, indo além das questões levantadas na tese da
primeira.
Elas
discorrem sobre o histórico destes setores, começando na Assembleia
Constituinte de 1988 como estratégias de reduzir o poder das hierarquias
dentro do parlamento e levar decisões ao plenário, até a forma tomada no Governo
Dilma II, quando uma boa parte do MDB que queria implementar um projeto
embrionário do partido (que tomou forma em “Uma Ponte para o Futuro”, em 2016),
liderada por Eduardo Cunha, se aliou à oposição para promover o impeachment. A
partir de uma análise de conteúdo buscando o uso do termo “Centrão” nos
arquivos digitais da Folha de São Paulo, no intervalo entre 2016 e 2020, elas
identificaram 11 partidos classificados nesta categoria (dos 8 do “Bloco”
atual, só o PSDB não estava entre eles). Porém, sempre estavam associados a
algum protagonista na arena polarizada: este é o diferencial do atual “Bloco”,
pois conseguiram se isolar agora (e com maioria), sem estar vinculados a
nenhuma das 2 forças inicialmente predominantes na disputa presidencial.
Ao
tomarmos o trabalho do LEPEM como continuidade da pesquisa de Bezerra na UFRGS,
temos maior capacidade para compreender este espectro político em sua
complexidade, ao invés de tomá-lo simplesmente como um campo instável e
imprevisível. Entender a origem dos estudos em questão nos trabalhos de Krause
e de Peres aprofunda ainda mais sua compreensão, exatamente porque não entendem
os partidos como agregados de identidades, mas também de atores racionais que
atuam diante de pautas prioritárias e associam-se a determinado partido porque
neste conseguem vantagens para levar a cabo projetos desejados por seus
apoiadores, de modo que uma legenda é como uma convergência de determinados projetos,
e sobre estes estabelece-se fidelidade partidária, não sobre os dos outros.
Fatores
orientadores da atuação partidária
“Para
tanto, inicialmente, defendo a posição de que existem certas fragilidades
lógicas e cosmológicas (concepção do mundo político e de seu funcionamento) que
dificultam a fundamentação sociológica das interpretações correntes e, para
isso, discuto três problemas básicos geralmente desconsiderados pela
literatura. O primeiro consiste no paradoxo lógico de que a estabilidade
eleitoral pode estar em conflito com a competição partidária, o que significa
que a valorização da estabilidade em detrimento da competição desconsidera um
dos requisitos básicos da democracia representativa: a efetiva contestação
pública (DAHL, 1971). O segundo problema, também de ordem lógica, refere-se ao
fato de que não existem critérios incontestáveis que justifiquem a escolha de um
determinado ponto ótimo para a volatilidade eleitoral. O terceiro problema, de
natureza teórica, reside no fato de que não há uma única maneira de interpretar
os significados de cada nível de volatilidade encontrado em cada país
específico e, portanto, precisamos de algum critério para justificar a escolha
de um tipo de interpretação em detrimento do outro.”
Paulo Sérgio Peres, Departamento de Ciência Política (UFRGS),
Revista Opinião Pública, volume 19, nº 1, 2013, p. 24-25
Um
entendimento mínimo acerca da coerência de uma agenda programática de partidos
situados no espectro de centro, tratados por Bezerra e Vieira, exige abordar o
multipartidarismo sem assumir como única medida de caracterização os polos
esquerda-direita, sobretudo quando nos deparamos com setores que se propõem ao
diálogo e à cooperação com ambos os lados da polarização. Conforme Paulo Peres
sistematiza no fragmento
acima, a existência de forças políticas que estabelecem uma cooperação
crítica (com “efetiva contestação pública”) está entre os “requisitos básicos
da democracia representativa”, na qual a “volatilidade eleitoral” (mudanças nas
escolhas dos eleitores) é exatamente o que alimenta as esperanças de quem
almeja conquistar o poder e, assim, legitimar o regime democrático. Esta
“volatilidade” pode nem sempre consistir em instabilidade da democracia ou
medida de sua baixa qualidade; muito pelo contrário, ela pode ser um sinal de
que a pluralidade de opiniões, oferta de propostas e a livre concorrência
política existem. Por isso é imprescindível uma articulação convincente que
viabilize um bloco independente — porém, não intransigente — de partidos, e
clareza sobre as políticas públicas por eles defendidas em suas Fundações
Partidárias; isto é fator decisivo para a credibilidade deste espectro político
fundamental, independente de quem esteja à frente do Poder Executivo (e,
sobretudo, se objetivar ele mesmo assumi-lo).
Como
já foi mencionado, essa agenda de pesquisa concentra as atenções na relação
entre forças governistas e oposicionistas no parlamento. Silvana Krause
contextualizou como esta abordagem compartilhada por ela e Peres em um capítulo
do volume A proibição das coligações proporcionais no Brasil: dinâmicas e
efeitos do local ao nacional, de 2023, sua contribuição buscando exatamente
explicar por que adotou este paradigma do “mercado eleitoral” no âmbito das
coligações proporcionais, e como os resultados destas pesquisas continuam úteis
mesmo depois da proibição deste tipo de coalizão interpartidária. Quando ela
sustenta a adesão a princípios de análise econômica para a leitura da dinâmica
política, coloca na mediação entre “oferta” e “demanda” não apenas as normas
que moderam os mais variados atores envolvidos no processo, como também os
diversos agrupamentos que formam os sistemas de interação
(competição/cooperação) e os recursos em jogo (disputam/trocam). Leva em
consideração a assimetria de informação entre eles, para o cálculo do eleitor
entre a “otimização dos ganhos” e a “resistência ideológica”, pois a opção
partidária estaria diretamente ligada às vantagens individuais resultantes das
políticas que podem ser identificadas como vinculadas a um partido. Em síntese,
a autora sistematiza sua abordagem e a de Peres em 3 fatores centrais:
•
“premissas sistêmicas atentas às interações entre atores”: eleitores,
partidos e políticos, eleitores individuais, classes econômicas, grupos
étnicos, linguísticos ou religiosos e todo o tipo de clivagens sociais, que os
colocam em posições assimétricas
•
“recursos”: cargos, votos (que interessam aos candidatos/representantes)
e políticas públicas (que interessam aos representados e a partir das quais
tomam suas decisões), que são acessados de forma assimétrica
•
“ambiente”: instituições, normas e contextos eleitorais e partidários,
que colocam os atores em posições assimétricas
De
uma forma geral, Krause observa como estes fatores se distribuem de modo plural
dentro de uma estrutura federativa heterogênea no que tange ao comportamento
eleitoral, e isso reflete nas decisões tomadas em âmbito office seeking
(dentro do parlamento). Quando vemos deputados de um mesmo partido votando de
formas diferentes sobre as matérias do Legislativo, isso pode ser reflexo dos
diferentes acordos regionais, totalmente condizentes com a estratégia do
partido; pode ser mais importante para um partido que seus deputados atendam às
demandas de suas bases do que simplesmente apoiem ou façam oposição ao
Executivo federal, e isso não acarretaria em “infidelidade partidária”. É algo
natural para todo partido que tenha ou pretenda ter muitos prefeitos espalhados
por todas as regiões.
Esta
abordagem neoinstitucionalista evolucionária, que ressalta a capacidade
de adaptação em meio ao jogo competição/cooperação com assimetria de
informação, foi muito bem sistematizada no artigo de Paulo Peres de onde foi
tirado o fragmento que abre esta seção. O autor sustenta a importância da
instabilidade eleitoral como fator que permite a alternância de poder, de modo
a alimentar esperanças para a oposição de almejar vitórias no futuro. Em outras
palavras, é o fato de os eleitores mudarem seus votos conforme identificam em
outras opções a capacidade de atender às suas demandas (econômicas,
institucionais, de costumes etc.), heterogêneas e muitas vezes conflitantes,
que garante a possibilidade de alternância de poder. Espera-se que, ao ser
escolhido, quem se elegeu para um cargo também conte com liberdade de ação para
corresponder aos anseios (heterogêneos e complexos) de seus eleitores: torna-se
importante tanto haver oposição responsável e vigorosa ao Executivo quanto
setores “não alinhados” e com ideias coerentes, a quem a oposição ou o governo
possam conquistar a cada rodada.
É
um caminho bastante sólido para se pensar os “não alinhados”, mas é sabido que
este grupo de pesquisadoras prioriza a análise das oposições (aliás, segundo
elas, os “não alinhados” ganham importância exatamente por fazerem parte do
jogo entre “governo” e “oposição”). Enquanto predominam no debate acadêmico
estudos que entendem a “instabilidade eleitoral” como algo necessariamente
negativo, cujos reflexos são os deputados de um partido não votarem de modo
homogêneo ou os partidos cada hora estarem de um lado, este grupo entende a
instabilidade em um campo político exatamente como elemento que mantém o
sistema vivo e legitimado. O doutorado de Gabriella Bezerra consiste em uma
reflexão sobre as condições dentro das quais as oposições parlamentares
conseguem exercer o papel de “contestação pública” de forma consistente.
Avançando nesta questão, em 2020 publicou em
coautoria com Paulo Peres um amadurecimento de sua pesquisa onde, inclusive, os
autores trazem uma tipologia com 3 diferentes formas de oposição, da
absolutamente antissistema (indesejável) à que menos ameaça o sistema político
em si:
•
Contra o regime político estabelecido, tendo como propósito a radical
alteração da ordem institucional;
•
Contra o governo enquanto tal, com o objetivo de inviabilizar a sua
gestão para substituí-lo o mais brevemente possível, seja por (a) eleições
regulares ou (b) antecipadas, seja por intermédio de alguma forma de (c)
destituição constitucional ou (d) inconstitucional;
•
Contra a agenda do governo como um todo, ou em parte, visando (a)
apresentar propostas alternativas, (b) influenciar os seus projetos ou,
conforme o caso e as suas possibilidades, (d) dificultar a sua aprovação ou (e)
vetá-los.
Pode-se
dizer que o primeiro tipo de oposição é a tendência quando nem as normas nem a
composição da arena política permitem vislumbrar a possibilidade de alternância
de poder, o risco quando se sufoca a “contestação pública”. O segundo é o que
joga dentro das regras, mas está focado principalmente em conquistar o Poder
Executivo, recorrendo a todos os artifícios previstos em lei para
desestabilizar a gestão, independente dos projetos por ela propostos. O último
é contra a agenda do governo ou algumas de suas propostas, em maior ou menor
medida, com maior ou menor heterogeneidade interna de acordo com o projeto em
questão. Em outras palavras, podemos dizer que esta terceira forma de
“oposição” não é tão oposição assim; ou que seria uma oposição programática,
não necessariamente na competição política, e muitas vezes pode até ocupar
postos-chave dentro do governo (existem discordâncias assim até mesmo dentro
dos próprios partidos). Neste sentido, há uma correspondência direta entre este
tipo de “oposição” mais circunstancial e o que estou chamando aqui de “não
alinhados”, de modo que o trabalho de Bezerra e Vieira já o entende como uma
terceira coisa quando consegue formar uma coalizão independente, como aconteceu
em 2015-2016 e agora, com o Bloco Parlamentar dos 8 partidos.
Outro
ponto fundamental aqui é que, a partir das considerações acima, compreender a
atuação dos “não alinhados” enquanto opositores, propositores ou apoiadores de
propostas depende em muito da compreensão das políticas que formulam, assumem e
defendem publicamente. Só conhecendo suas ideias é possível entender até que
ponto elas fazem sentido internamente e dentro da coalizão. Dentro dos
paradigmas de Krause e Peres, este é um ponto que pode direcionar para o estudo
das Fundações Partidárias, o que será tratado daqui em diante.
O
paradigma neoinstitucionalista evolucionário não rejeita que os partidos
também sejam agregações de atores unidos por uma identidade, nem que se espere
que os deputados de um partido votem sem um mínimo de homogeneidade. Em relação
ao eleitorado, não imagina que a “volatilidade eleitoral” se dá apenas por
mudanças nos interesses econômicos, admitindo a importância da “resistência
ideológica” quando se muda o partido da liderança na qual se vota, e entende
que, mesmo escolhendo outra sigla, a alteração é para outra com proximidade
programática. Apenas considera que, junto a este aglutinador identitário,
existem fatores racionais nos posicionamentos individuais dos parlamentares e
nas escolhas dos eleitores, atitudes selecionadas conforme o contexto. Esta
alternativa de “vira-voto” é o que mantém viva a possibilidade de alternância
de poder, e garante a confiança e a qualidade da democracia. Por representarem
esta instabilidade necessária, aprofundar sobre o que os “não alinhados” articulados
em uma coalizão defendem em suas “Fundações” torna-se tão relevante.
Governança
Pública e Desenvolvimento Econômico Sustentável nas Fundações Partidárias
Considerando
que o quadro multipartidário brasileiro é marcadamente plural, abordando um
leque enorme de pautas que, mesmo concentrando-me inicialmente em uma lista
específica de legendas, propor abordar tudo que defendem seria o mesmo que não
abordar nada direito; por isso irei priorizar o que há sobre Governança
Pública e Desenvolvimento Econômico Sustentável, pautas fundamentais
para a execução de todas as demais políticas públicas. Inclusive, tomando como
referência os critérios de análise sistematizados[i]
por Ivan Filipe Fernandes (PPGPPU - UFABC) e Humberto Dantas (FIPE e FGV,
membro do grupo de pesquisa liderado por Krause), além da formulação de
políticas, as Fundações Partidárias exercem uma série de outras atividades, de
grande relevância nacional e internacional, que serão abordadas nos
diagnósticos desta série e melhor detalhadas mais adiante.
A
relevância dada às “Fundações” por Krause e Schaefer, no já citado capítulo do
volume organizado pelo TSE, lança uma boa ideia do papel destes órgãos nos
partidos e, por consequência, em nosso sistema político-partidário. Se no
trabalho deles somos levados a entender isso a partir da distribuição de
recursos para financiamento das legendas, um artigo introdutório sobre partidos
que destaca o papel delas na formação e formulação da agenda é o publicado
por Gustavo Santos, em volume sobre partidos políticos organizado em parceria
pela Oficina Municipal e Fundação Konrad Adenauer - KAS. O professor da Catholic
University of America (Washington, DC), que já foi pesquisador na Universidade
de Notre Dame (EUA) e coordenador de projetos em formação política da KAS
(Brasil), parte de uma perspectiva schumpeteriana, concebendo os partidos como
“associações permanentes de cidadãos que almejam ocupar os cargos politicamente
decisivos do Estado, com seus dirigentes, pela via eleitoral, com a finalidade
de concretizar suas ideias referentes à organização da sociedade e às políticas
públicas” (p.78).
Procurando
complementar a definição do economista austríaco com as de Key e Riggs — e
satisfazendo às 2 dimensões tratadas na seção anterior, a racional e a
ideológica —, ele define 5 atividades fundamentais destas organizações (órgãos
deliberativos, diretivos, de representação de classes de interesses, comissões
de ética e fundações de formação e formulação programática), entre elas as das
fundações e institutos de formação e formulação, órgão responsável pela
formação política dentro dos princípios do partido e pela compreensão e
aperfeiçoamento das políticas públicas almejadas por seus filiados e eleitores
(efetivos ou potenciais): este seria o elemento central para a conquista da
confiança dos cidadãos e das demais legendas. É curioso que tenhamos poucos
trabalhos sobre as “Fundações” no Brasil (e no mundo).
Um
projeto recente que levanta as principais contribuições brasileiras e
internacionais a respeito destes órgãos partidários é o Organizações
partidárias no Brasil: dilemas e perspectivas, desenvolvido por José Paulo
Martins Junior (UFF) e Priscila Schmitz (doutoranda em Ciência Política na
UERJ). Eles concentram-se
no papel formativo, apontando que a “formação política pressupõe, então, uma
determinada matriz programática, ideológica e um conjunto de bases políticas
calcadas em determinadas práticas pedagógicas” (p. 98). Com isso, entendem a
“formação” como momento em que as mais variadas pautas do conteúdo
programático, doutrinação ideológica e relação com a sociedade civil ganham uma
forma palatável para qualquer cidadão, não apenas os filiados.
Dentro
do escopo de “Organizações partidárias no Brasil”, em um paper apresentado por Schmitz no I
Congresso de Ciência Política do Nordeste (2021), a pesquisadora
reconstitui tanto o histórico das “Fundações” no Brasil quanto as principais
contribuições científicas sobre o tema (principalmente nos últimos 30 anos).
Situa a grande influência das Stiftungen alemãs como norteadoras dos
nossos órgãos de formulação e formação, identificando 3 vertentes principais de
pesquisa acerca do tema no Brasil: estudos históricos, jurídicos e
comparativos. Neste trabalho mais abrangente aborda, além da formação, a “esfera
de influência, formulação e análise de programas políticos” (p. 221), dá
especial atenção ao já mencionado framework paradigmático de Fernandes e
Dantas e busca conexões entre a proposta comparativa deles com estudos de caso
de abordagem histórica e os focados na regulação jurídico-institucional.
Os
autores partem da ideia de que as Fundações Partidárias podem ser avaliadas
conforme satisfaçam duas funções principais, formulação baseada em “produção de
pesquisa” e formação política ancorada na “disseminação de doutrinas”, e, para
o exercício adequado destes papéis, devem possuir “administração executiva”,
“conselho científico”, conjunto de “áreas temáticas” de formulação e formação,
atuação em rede com outras instituições para formulação e formação, cooperação
internacional e, por último, “institutos subsidiários” que atuem
prioritariamente com a “Fundação”. Como nesta série, por uma questão de escopo,
não será tratada a organização administrativa, não serão abordadas “administração
executiva” e “conselho científico”, e estas funções serão agrupadas em 2 critérios
estruturais, além de mais 6 especificamente a respeito de “Pesquisa,
Divulgação e Formação”. Ao todo, serão descritos sobre cada um dos 8
partidos do “Bloco” os seguintes fatores:
A. Critérios Estruturais:
- conjunto de “áreas temáticas” de formulação e formação
- atuação em rede com outras instituições, onde irei incluir ação conjunta com “institutos subsidiários” e “cooperação internacional”
B. Pesquisa, Divulgação e Formação:
- Pesquisa: atividades de pesquisa acadêmica apoiadas;
- Eventos, Seminários e Congressos: eventos com pesquisadores e lideranças (políticas e civis) tratando de temas que “tenham afinidade com seus valores e missão”;
- Publicações: revistas, relatórios de formulação e newsletters com os resultados das pesquisas e eventos;
- Formação: cursos e programas de formação para suas lideranças e/ou cidadãos em geral, sobre os conjuntos de doutrinas orientadoras do partido e boas práticas de gestão/governança;
- Arquivos de memória: acervos organizados sobre o histórico da instituição, proposições de lideranças do partido e/ou sobre as trajetórias destas personalidades simbólicas;
- Mídia e tecnologia (divulgação digital): ferramentas digitais que permitam acesso aos conteúdos anteriores, como “esforço de comunicação e difusão”, concretizando conexão com filiados e sociedade em geral.
A
partir dos critérios acima, os autores avaliaram fundações dos principais
partidos de 7 países (Brasil, Espanha, França, Alemanha, Argentina, Chile e
Uruguai), e, nesta pesquisa de mais de 10 anos atrás, chegaram ao diagnóstico
de que, no Brasil, existe uma baixa interação entre os partidos e os cientistas
políticos e demais áreas de pesquisa acadêmica, sobretudo em legendas fora do
campo da esquerda. Uma das explicações para isso pode ser encontrada retomando
o trabalho de Paulo Peres de 2013, que admite o baixo interesse de pesquisas
sobre partidos fora deste espectro, dada a predileção pelos chamados “partidos
de massa”, de mais fácil compreensão devido à excessiva doutrinação e busca
pela homogeneidade ideológica — nem sempre tão democrática. Isso muito se
relaciona com a concepção de que maiores taxas de “volatilidade eleitoral” e de
heterogeneidade nas votações parlamentares dentro de um mesmo partido seriam
sinônimos de baixa qualidade da democracia, mantras de nossos politólogos que
podem ser questionados pelo paradigma neoinstitucionalista evolucionário.
Esta abordagem alternativa pode abrir caminho para um novo entendimento das
forças “não alinhadas”, incentivando uma visão menos estereotipada e mais
explicativa destes grupos políticos, entendendo a importância deste espectro
para a dinâmica democrática e aumentando a interação dos analistas com estes
partidos.
Considerações
preliminares
Começo
esta agenda de reflexões pelos partidos que chamo de “não alinhados”
ideologicamente porque, se há uma característica comum a eles, é a não
radicalização, o que, em princípio, os permite olhar para a esfera pública com
menos paixão e maior pragmatismo, inclusive em relação às políticas públicas.
Se olharmos mais de perto, todos os partidos com alta representatividade passam
pelos mesmos dilemas, principalmente na medida em que adquirem abrangência
nacional e administram estados e municípios, ganhando maior complexidade na
estrutura federativa. Entender as possíveis convergências programáticas entre
eles, os limites de ação de suas lideranças, o que podem negociar e o que para
eles é inegociável, pode ser útil tanto para eles quanto para os extremos;
enfim, para todos que disputam poder e procuram aliados.
De
maneira alguma se exclui abordar as demais legendas conforme também formam
coalizões, o que deve acontecer ao longo do ano, e será feito o possível para
dar conta antes do início das campanhas deste ano das Fundações dos 17 partidos
que possuem deputados federais. O propósito não será avaliar quem tem maior ou
menor atividade, nem conteúdos mais ou menos sofisticados, mas para onde cada
um aponta, soluções para o país, fragmentadas ou sistematicamente consistentes;
esta riqueza multipartidária é o que importa.
Igualmente,
tem-se consciência de que aqui apenas se apresentou um conjunto de referências
da ciência política brasileira, trabalhos a serem relidos, cujas ligações entre
as pontas ainda precisam ser melhor compreendidas neste projeto. Nada melhor do
que ir a campo para que teorias ganhem forma em nossa mente através da
experiência no real. Por isso, acredito que até o final desta série de 8
partidos muito do que foi conjecturado neste texto reapareça de forma mais
acabada no último dos 10 primeiros artigos desta agenda de discussão
aparentemente infinita: se política é como nuvens, cada dia elas se renovam e
vemos algo diferente quando olhamos.
Até
a próxima semana!
*Marcos
Rehder Batista, sociólogo, pesquisador do CEAPG (EAESP – FGV) e do CPTEn (FEEC –
Unicamp), foi Coordenador de Formação (2023) e coordenador-adjunto de
Articulação Política (2022) do Direitos Já! Fórum pela Democracia
[i]
- Em virtude de os papers do congresso onde este framework foi apresentado não
estarem mais disponíveis no site da Associação Brasileira de Ciência
Política – ABCP, segue a referência para que possa ser consultado em sua
publicação física: FERNANDES, I. F. de A. L.; DANTAS, H. (2013) Fundações
partidárias no Brasil e no mundo: funções legais, ações formativas e análise em
perspectiva comparada. In: ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CIÊNCIA
POLÍTICA, 8, 2012, Gramado. Anais Eletrônicos. Rio de Janeiro: ABCP, 2013.
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