Coalizão dos “não alinhados” Z: a surpresa de Augusto Cury


Foto: Augusto Cury e Luis Tibé. Créditos: Avante/Divulgação

Coalizão dos “não alinhados” Z: a surpresa de Augusto Cury

Marcos Rehder Batista*

A maior surpresa entre os rearranjos proporcionados ao final do período de janela partidária e desincompatibilizações, ao meu ver, foi o anúncio da pré-candidatura do psiquiatra e escritor Augusto Cury. Sem filiação partidária até semana passada, no começo de março já havia divulgado um documento com as linhas gerais do programa que irá defender, se colocou como opção para alguns partidos sem alinhamento direto na polarização, como PSDB, MDB, Podemos e PSD (que, entre Eduardo Leite e Ronaldo Caiado, optou pelo ex-governador goiano), recebeu o aval do Avante e, no Domingo de Páscoa, foi anunciado como pré-candidato do partido por Luis Tibé.

É uma alternativa que parece ter como principal característica própria não se construir a partir dos polos, não se associando a nenhum nem reproduzindo o discurso do “nem um, nem outro”; simplesmente traz propostas que são anteriores ao seu posicionamento na arena partidária. Se, por um lado, ignorar a polarização em favor de uma agenda programática dificulta um engajamento automático de seu eleitor potencial, por outro, pode atrair, aos poucos, fatias mais moderadas da sociedade, principalmente nos momentos em que seus adversários passarem do ponto.

Apesar de a série Coalizão dos “não alinhados” ter por objetivo tratar de como as fundações partidárias dos partidos pertencentes ao Bloco Parlamentar União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, Federação PSDB – Cidadania e Podemos, exatamente como um esforço de tirar os olhos do turbulento ambiente eleitoral e focar nas propostas, ponderou-se ao menos aguardar o posicionamento definitivo do tabuleiro partidário. Pois bem: ontem, quando comecei a esboçar o texto sobre a Fundação Ulysses Guimarães (MDB), vi a novidade do Avante e resolvi escrever sobre ela, para pôr término à espera e voltar ao projeto em si a partir da próxima semana, até porque, após esta série, pretendo falar sobre as fundações do Bloco Parlamentar Avante, Solidariedade e PRD, onde está inserida a candidatura de Cury.

O doutor pela Florida Christian University em Psicologia Multifocal (conceito que ajudou a criar, inclusive) acompanha os efeitos perversos da polarização e se posiciona politicamente, pelo menos, desde 2018, quando emergiu definitivamente o atual clima de gincana “risca-faca” em nosso país. No último 4 de março, divulgou uma “Carta aberta à sociedade brasileira”, com um extenso conjunto de objetivos programáticos que devem orientar seu programa de governo e sua campanha. Acompanhando o documento, divulgou um vídeo no YouTube apresentando suas principais motivações e os principais tópicos que considera urgentes a serem resolvidos no país. Este vídeo foi republicado na página do think tank “Paraíso Brasil”, o que pode dar indicativos de adesão em alguns setores intelectualizados da sociedade.

O Paraíso Brasil é um movimento formado, em sua maioria, por economistas, engenheiros e pesquisadores em políticas públicas, com boa parte dos colaboradores formados em instituições de prestígio como Unicamp e UFRJ (graduação e pós), muitos funcionários de carreira de órgãos públicos, como BNDES, Petrobras e Itamaraty. São inspirados em intelectuais desenvolvimentistas moderados, nacionalistas focados em nossas especificidades, como Carlos Lessa, Darcy Ribeiro e Gilberto Freyre. Além deste grupo, que demonstrou apoio à ideia, esta candidatura pode atrair, com o tempo, várias lideranças (de empresários, políticos e acadêmicos) tradicionais de centro.

Em sua primeira agenda pública após o anúncio, Augusto Cury esteve na feira agropecuária TECNOSHOW, em Rio Verde (Goiás), onde foi palestrante nesta manhã, num auditório lotado, com mais de 600 pessoas. Lá, ele fez questão de afirmar que sustentará sua candidatura até o fim e, apesar de já ter uma carreira consolidada como escritor e psiquiatra e ter consciência dos ataques pessoais que sabidamente todos que se embrenham na política recebem, se manterá na disputa porque tem propósito. De fato, conforme divulgou no texto do começo de março (veja aqui, na íntegra), ele prioriza 14 pautas setoriais no que chama de Projeto Brasil 2027-2050, que apresenta com dados gerais e aponta para objetivos iniciais a serem amadurecidos:

  1. Responsabilidade Fiscal
  2. Bônus Demográfico
  3. Revolução de IA e Robótica
  4. Potencial Agropecuário
  5. Reindustrialização
  6. Regularização Fundiária Urbana
  7. Repensar a Educação Básica
  8. Ensino Médio Profissionalizante
  9. Universidade, pesquisa e empreendedorismo
  10. Democratização da Saúde
  11. Fortalecer a Bolsa de Valores para financiamento
  12. Ministério da Justiça concentrando combate à corrupção e direitos de gênero e minorias
  13. Pauta ambiental protagonizada por silvicultura e plantio de florestas
  14. Audiovisual e teatro protagonizando a cultura

Tratando-se apenas de uma carta de intenções, é implícito que seus apontamentos devem ser melhor esmiuçados para um programa de governo, e seria muito mais interessante se, para cada pauta, houvesse um ou mais especialistas propondo e falando em nome dele (pensar no “gestor” que tudo sabe é, sempre foi e sempre será uma falácia). Se isso já defende para um ministério, quando propõe um “governo de notáveis”, citando figuras acadêmicas próximas dele, de apelo público, como Marcos Lisboa, Alexandre Schwartsman e Armínio Fraga, quando e se a candidatura ganhar corpo, estas pessoas podem, de fato, se aproximar (no momento, estão meio soltas por aí). Em resumo, é uma proposta social-liberal — Cury usa o termo “Capissocial” (capitalista com consciência social), bobagem criar neologismo para um conceito que já existe —, que foge ao discurso monotônico de “segurança pública”, políticas compensatórias ou identitárias, “combate ao golpismo” ou “ao comunismo”, já de início mostrando a diversidade de questões com as quais o Poder Executivo precisa lidar e assumindo o desafio de trabalhar com as várias agendas necessárias para acelerarmos um Desenvolvimento Econômico Sustentável.

Há de se destacar também algumas mudanças institucionais complexas colocadas sobre a mesa no final da “Carta”, como a adoção do Semipresidencialismo e reforma no Judiciário. Sobre o Semipresidencialismo, como, via plebiscito, os brasileiros adotaram o Presidencialismo, teríamos um chefe de Estado escolhido em eleições diretas, que indicaria um chefe de governo a ser aprovado pelo Congresso e que pode ser destituído por ele (tem que ser indicado pelo presidente, caso contrário seria Parlamentarismo, algo inconstitucional depois do plebiscito da década de 1990). Sobre a reforma no STF, propõe mandatos de 8 a 10 anos, sendo 2/3 da composição oriundos da magistratura, 2 a 3 membros do MP e 1 da OAB, restringindo as indicações políticas e qualificando nossa Suprema Corte.

Num ambiente tão cristalizado como este de nossa arena política, aparecendo após o posicionamento dos principais players (até então), naturalmente há dúvidas sobre o efetivo crescimento desta candidatura. Porém, num primeiro momento, só por estar posta e palatável à adesão de quem se incomodar com radicalizações dos adversários, já tem suma importância para as Eleições 2026. Principalmente por ser absolutamente independente dos polos, focada numa agenda multissetorial, com horário de TV e rádio e baixa rejeição (precisamente porque até agora não ataca nem se alinha a ninguém nem a nenhum discurso de outro concorrente), pode ser um fator absolutamente relevante como incentivo à moderação. Muita coisa pode acontecer em 6 meses...

Passado o período da “janela eleitoral” e das desincompatibilizações, na próxima semana retomo a programação da Série Coalizão dos “não alinhados”, sobre os órgãos de formulação e formação dos integrantes do Bloco Parlamentar União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, Federação PSDB – Cidadania e Podemos, começando pela Fundação Ulysses Guimarães, do MDB.

Uma ótima semana, e até lá!

Marcos Rehder Batista, sociólogo, pesquisador do CEAPG (EAESP – FGV) e do CPTEn (FEEC – Unicamp), foi Coordenador de Formação (2023) e coordenador-adjunto de Articulação Política (2022) do Direitos Já! Fórum pela Democracia.

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