Coalizão dos “não alinhados” III: o Espaço Democrático do PSD


Foto: Poder 360

Coalizão dos “não alinhados” III: o Espaço Democrático do PSD

Marcos Rehder Batista*

 

A recente renovação programática do PSD

É possível dizer que o Partido Social Democrático - PSD, e por extensão sua fundação Espaço Democrático, seja a organização partidária que mais intensamente reúna as principais características disso que, nesta série, estou chamando de partidos “não alinhados”. Comparado com os outros 7 partidos do bloco parlamentar tratado neste projeto, não carrega o peso histórico de representar a “esquerda” durante o regime militar, como o MDB. Também não é um dos herdeiros diretos da ARENA, amadurecidos e moderados pelo tempo, como são União Brasil, Progressistas e Republicanos. Não estabeleceu polarização com o PT por mais de uma década, como PSDB e Cidadania (antigo PCB), legendas marcadamente social-democratas, mas com propostas de Welfare State diferentes do lulismo. Pode-se dizer que tem algumas semelhanças de posicionamento com o Podemos, partido um pouco mais à direita, com a diferença de que o partido presidido por Gilberto Kassab conta com lideranças tradicionais em nível nacional, maiores bancadas nos parlamentos e maior capilaridade nos Estados e Municípios, o que torna sua coordenação mais complexa e o lança para a defesa de uma estrutura federativa eficiente para a base, para os municípios; a sustentação de um programa partidário compartilhado por suas lideranças, nas mais diversas esferas, torna-se uma tarefa bem mais difícil.

Esta tarefa se torna ainda mais desafiadora quando nos damos conta de que uma das principais motivações para a fundação deste partido foi, diante da polarização PT x PSDB, se colocar como interlocutor com todas as forças estabelecidas, adotando princípios e valores adequados para este intento: sempre teve um conjunto consistente de propostas, defendidas sem radicalismos. Lançado em 2011 e oficializado em 2012, em fevereiro deste ano possuía 6 governadores, 3 ministérios e, concluída a “janela partidária”, tem uma bancada de 13 senadores e 49 deputados, além de, em 2024, ter eleito 891 prefeitos, 640 vices e 6.953 vereadores, espalhados por todas as unidades estaduais, reafirmando a necessidade de um viés municipalista. Diante deste quadro, o recente desafio em atualizar suas propostas torna-se uma tarefa de rigor cirúrgico, em consonância com os princípios da Internacional Democrata de Centro - IDC, maior entidade internacional multipartidária, que reúne partidos moderados de centro-esquerda à centro-direita, sendo este último o espectro do qual o PSD se declara mais próximo atualmente.

A entrada da legenda brasileira, em 2024, nesta “Internacional Democrata” de escopo global, que compartilha posturas não radicais, pode consistir em um impulso para sua atualização programática sem alterações substanciais sobre suas bandeiras iniciais, conforme escrevi ano passado em artigo para a “Revista Será?”. Inclusive, no final do ano passado aconteceu a primeira Assembleia Geral da IDC no Brasil, onde foi aprovada a “Declaração de São Paulo”, documento em que o PSD apresentou à entidade o conjunto de propostas que defende atualmente para o Brasil, uma espécie de renovação do que propõe. O evento teve cobertura de importantes órgãos de imprensa, como Folha de São Paulo, Estadão/UOL e Poder 360, e nele foi apresentado como projeto nacional o conceito de “Concertação Democrática”, em parceria com a Fundação Konrad Adenauer, órgão de formulação e formação da União Democrata Cristã, da Alemanha, que acompanha em abrangência global a atuação da IDC.

Diferente da Concertação Social, que “se limita à economia e às relações de trabalho”, a Concertação Democrática “expande seu escopo para a governança e a estabilidade institucional”, priorizando a articulação política para “consensos mínimos em sociedades pluralistas”, através de “um processo deliberativo que busca conciliar diferentes interesses e visões de mundo por meio do diálogo estruturado, da cooperação interinstitucional e da construção de compromissos compartilhados entre atores públicos e privados”. Estes princípios, apontados para medidas objetivas para o Brasil, estruturam-se em 5 eixos:

  • Governabilidade e reforma política: implementação do voto distrital misto vinculado à lista partidária fechada e fim das coligações majoritárias, aumento progressivo do percentual na cláusula de barreira, além de mecanismos mais eficazes para transparência do financiamento político; estas medidas tendem a aumentar a representatividade local e diminuir o número de partidos. Isso deve ser acompanhado por uma revisão das competências no Pacto Federativo, com maior independência dos Estados e Municípios;
  • Desenvolvimento econômico sustentável: maior agilidade e clareza de critérios para licenciamento ambiental (sobretudo no agronegócio, logística, saneamento e energia), sem perda do rigor e com medidas de mitigação, com integração de cadastros e de sistemas governamentais, também no que tange a ambientes de negócio. Ainda sobre indução de melhores ambientes econômicos, defende o equilíbrio fiscal, a simplificação do sistema tributário e um ambiente de negócios ágil e desburocratizado, além de estímulos à ampliação da poupança, do investimento (público e privado), do empreendedorismo e da inovação;
  • Políticas sociais eficientes: prioridade para educação infantil (concentrando esforços em regiões de baixo IDH), ensino técnico e meritocracia docente; incentivo à contratualização junto às OSs na saúde, acompanhado de mecanismos de auditoria mais eficazes, e à telemedicina; unificação de programas na assistência social, adotando condicionantes educacionais e sanitários e, na segurança, maior rigor nas penas e aprimoramento da integração de dados, com ampliação da cooperação regional no combate ao crime organizado;
  • Modernização do Estado: transformação digital e eficiência na gestão, desde os serviços públicos online, avaliação de resultados, transparência e combate à corrupção (via órgãos de controle) até identificação digital, entendendo o impacto regulatório das novas tecnologias para revisão periódica de normas (regulação inteligente); e
  • Transição energética pragmática: recuperação de nossa liderança em energia limpa, via desenvolvimento tecnológico (financiamento de pesquisa pública e privada), evitando o retrocesso de nossas atividades produtivas através de melhor precificação de carbono, por meio de mercados de emissões com compensações setoriais, e prazos mais realistas para cada setor econômico; isso desde a COP30 já.

Como será pontuado na penúltima seção, em alguma medida, todos estes pontos já estavam presentes nos Princípios e Valores fundacionais do PSD, e estão bastante coerentes com a IDC. Questões como governo digital, priorizando integração de sistemas e otimização de resultados, já estão presentes, visando desburocratização em vários setores. O equilíbrio fiscal e boas práticas de gestão e governança como fatores decisivos para o desenvolvimento econômico e planejamento público também. A questão ambiental e a transição energética, segundo a “Declaração”, devem ser pensadas junto ao seu potencial tecnológico e produtivo, como impulsos à economia, de modo que as restrições consequentes desta pauta devem ser amenizadas por práticas inovadoras.

Estas ideias já vinham sendo difundidas pelo Espaço Democrático nos vários conteúdos produzidos, sendo possível identificá-las nas atividades de formulação e formação do partido, foco da série Coalizão dos “não alinhados”. Por isso, antes de aprofundarmos sobre a linha programática, a próxima parte deste texto tratará de como a Fundação Partidária, responsável pela difusão das propostas partidárias, corresponde aos critérios de análise propostos em 2012 por Ivan Filipe Fernandes (UFABC) e Humberto Dantas (FGV e FIPE), descritos na introdução desta série Coalizão dos “não alinhados”. Já nesta descrição da atuação deste órgão partidário aparecem indícios do que defendem, para finalmente discutirmos o que os social-democráticos se propõem.

 

A Fundação Espaço Democrático

É possível encontrar um forte paralelo entre as atividades da Fundação Espaço Democrático e as condições dentro das quais o PSD foi criado e sua atual conformação, tanto em relação à amplitude ideológica do conjunto de suas lideranças (de centro-esquerda à centro-direita, concernente à diversidade de abordagens na Fundação Konrad Adenauer e na Internacional Democrata Centrista), quanto à sua abrangência em território nacional, desde ministros de Estado na esfera da União até vereadores em municípios pequenos, passando por senadores, deputados federais e estaduais, governadores (incluindo alguns que se elegeram por outros partidos, mas reconheceram melhores condições de atuação entre os social-democráticos). Sobretudo no que se refere a seminários e publicação de artigos de cientistas e intelectuais, há uma frequência quase diária de textos e eventos semanais, que são disponibilizados ao público na internet, com conteúdos adicionais sobre eles, onde são abordadas as mais diversas questões em debate na esfera pública (de reforma tributária a identitarismo), sem concentração em um leque restrito de pautas.

É importante salientar que não existe distância alguma entre a “Fundação” e o site nacional do PSD pois, mesmo na página inicial deste último, boa parte dos conteúdos são links para o Espaço Democrático. Desempenha uma ação de formulação e formação orientada pela esfera pública conforme determinado assunto está em pauta, sem segmentação, o que, por um lado, não prende a agenda em um arcabouço fechado de pautas e, por outro, proporciona reflexões bastante aprofundadas sobre os temas relacionados à administração pública, coerentes com a identidade partidária.

Como foi feito no texto sobre o MDB, segue uma descrição dos 8 critérios retirados de Fernandes e Dantas, apresentada na introdução à série Coalizão dos “não alinhados”. Estão subdivididos em “A. Critérios Estruturais” (i. “áreas temáticas” prioritárias e ii. “atuação em rede com outras instituições”) e “B. Pesquisa, Divulgação e Formação” (i. Pesquisa, ii. Eventos, iii. Publicações, iv. Cursos de formação, v. Arquivos de memória e vi. Mídia e Tecnologia).

 

A. Critérios Estruturais (“áreas temáticas” e “atuação em rede com outras instituições”)

Junto com o lançamento do novo programa partidário do MDB, pode-se dizer que o texto que escrevi ano passado sobre o ingresso do PSD na Internacional Democrata Centrista - IDC foi a motivação definitiva para a elaboração da série Coalizão dos “não alinhados”. É a principal “atuação em rede com outras instituições” do partido, que o insere no debate sobre como questões mundiais devem ser trabalhadas no Brasil. A IDC é a mais representativa rede interpartidária do planeta, e esta conexão torna mais estreita a relação com a Fundação Konrad Adenauer - KAS. Os primeiros passos desta relação foram descritos no mencionado artigo na “Revista Será?”, e pode-se dizer que reforçam os compromissos da legenda presidida por Kassab com 6 pontos estatutários da IDC. Do meu artigo de julho de 2025 para cá, este vínculo internacional se aprofundou, com a realização em São Paulo da Assembleia Geral da IDC em novembro passado, com participação da KAS na organização de debates e destaque no think tank desta entidade para o líder dos social-democráticos brasileiros na Câmara dos Deputados, deputado Antônio Brito. Já em março de 2026, o Espaço Democrático convidou José Mário Brasiliense Carneiro (Oficina Municipal e KAS) para um encontro sobre Konrad Adenauer, o primeiro chanceler alemão pós-II Guerra Mundial, idealizador da IDC e do pensamento democrata-cristão contemporâneo (ou democrata-centrista), e um dos found fathers da União Europeia.

Em relação à forma com que o partido (e sua Fundação Partidária) seleciona e organiza “áreas temáticas” prioritárias, fica clara a prioridade para discussões econômicas, tanto em nível macro quanto microeconômico, procurando alternativas para inclusão social focadas na criação de um ambiente propício ao empreendedorismo para micro e pequenas empresas. Uma outra agenda prioritária em sua pauta é o aprimoramento do sistema democrático e mecanismos de accountability/governança, sobretudo quanto ao aperfeiçoamento de mecanismos de descentralização. De fato, eles proporcionam um leque marcadamente amplo de questões, com referências nacionais tratando de praticamente todos os temas em pauta na esfera pública.

Além destes temas sistêmicos, no próprio Estatuto do PSD definem-se 4 “setoriais” como parte da estrutura partidária, a serem trabalhadas por seu órgão de formulação e formação: PSD Mulher, PSD Jovem, PSD Movimentos e PSD Afro. Os 2 primeiros possuem área específica no site nacional do partido, com estratégias específicas para tratar temas relacionados à mulher e aos jovens, enquanto os demais possuem espaços nas páginas dos diretórios estaduais onde apresentam forte atuação, como o PSD Afro no Distrito Federal e o PSD Movimentos em Minas Gerais; este último, mesmo não contando com uma área especial no site nacional, possui forte atuação nacional através de seu responsável, Ricardo Patah, também presidente da central sindical União Geral dos Trabalhadores – UGT, principalmente na luta pela garantia da empregabilidade.

 

B. Pesquisa, Divulgação e Formação

  1. Pesquisa (atividades de pesquisa acadêmica apoiadas): há um conselho formado por pesquisadores e lideranças conceituadas em políticas públicas, entre eles os cientistas políticos Rogério Schmitt e Rubens Figueiredo, o sociólogo Túlio Kahn, os economistas Luiz Alberto Machado e Roberto Macedo e o médico sanitarista e ambientalista Eduardo Jorge, candidato à Presidência da República em 2014 pelo PV, partido onde continua filiado;
  2. Eventos, Seminários e Congressos (com pesquisadores e lideranças — políticas e civis — sobre temas que “tenham afinidade com seus valores e missão”): o conselho científico reúne-se semanalmente nos “Diálogos no Espaço Democrático”, para debater as pautas mencionadas nas “áreas temáticas”, convidando referências nacionais em temas específicos, além de encontros mais abrangentes, como o feito junto à KAS na Assembleia Geral da IDC;
  3. Publicações (revistas, relatórios de formulação e newsletters com os resultados das pesquisas e eventos): a área de publicações do Espaço Democrático é marcadamente efetiva, com textos preparatórios para os “Diálogos no Espaço Democrático” ou transcrição destes encontros, além de estudos acadêmicos, como os relatórios sobre “Criatividade e Inovação”, de Luiz Roberto Machado, e criminalidade na Amazônia, de Túlio Kahn;
  4. Formação (cursos e programas de formação para suas lideranças e/ou cidadãos em geral, sobre os conjuntos de doutrinas orientadoras do partido e boas práticas de gestão/governança): o Espaço Democrático já ofereceu educação e formação política básica, desde os primeiros anos do PSD, tendo também organizado cursos de gestão pública com aulas e seminários predominantemente ministrados pelos membros de seu “conselho científico”, e de preparação para candidatos. Foram bastante completos, que pensavam o processo político em todas as instâncias do pacto federativo, além de proporcionarem uma consistente apresentação do pensamento político clássico e sobre a sociedade brasileira;
  5. Arquivos de memória (acervos organizados sobre o histórico da instituição, proposições de lideranças do partido e/ou sobre as trajetórias destas personalidades simbólicas): apesar de tratar-se de um partido relativamente recente (15 anos de existência), e considerando a dinâmica de complementaridade entre o partido e sua Fundação Partidária, no site principal do PSD dá-se destaque para a linha do tempo do processo de constituição do partido até os dias de hoje e aos Princípios e Valores fundacionais pensados por Afif Domingos, que serão apresentados na próxima seção;
  6. Mídia e tecnologia (ferramentas digitais que permitam acesso aos conteúdos anteriores, como “esforço de comunicação e difusão”, concretizando conexão com filiados e sociedade em geral): além do canal no YouTube atualizado com bastante frequência, a Fundação Espaço Democrático também divulga sua atuação no X, Facebook e Instagram, além de possuir um podcast no Spotify. 

Em resumo, pode-se dizer que o Espaço Democrático prioriza a formulação, e menos a formação, até porque o PSD caracteriza-se por agregar lideranças já consolidadas, demonstrando acreditar que o aperfeiçoamento de seus quadros se dá ao acompanhar os grandes debates nacionais e internacionais. Ao mesmo tempo em que prioriza algumas pautas, não as concentra em vários conteúdos programáticos consolidados; isso dá liberdade para que seus filiados construam pensamentos próprios, visto que a natureza do partido configura-se precisamente na capacidade de moderar atores diversos, respeitando suas demandas setoriais e/ou regionais. Entretanto, possui, sim, uma linha programática clara, e através dela seleciona seus posicionamentos perante as diversas pautas que surgem a cada dia, e delas se ocupará a próxima seção.

 

A “Concertação Democrática” e os princípios da IDC e do PSD

A concepção de “Concertação Democrática”, como visto anteriormente, pode ser vista como um padrão de governança entre os agentes políticos, que disputam votos, recursos, influência interna dentro de suas legendas, enfim, disputam poder. Ao observarmos o Estatuto do PSD, vemos que ele todo trata das regras de tomada de decisão, praticamente não fala de seus 12 Princípios e Valores (apenas de modo geral, bem em seu início, sem enumerá-los). Identificar isso permite arriscar dizer que é a partir da consciência de que, seja lá qual for a agenda programática, sem esta moderação de atores – e consequente capacidade de entender o que pode ser negociável e o que é inegociável – nenhum projeto pode ser implementado. É também neste ponto que temos uma total confluência entre o partido e a IDC, conforme pode ser visto no quadro abaixo, em que apresento a correspondência entre os 11 princípios indicados no Estatuto da IDC (que no citado artigo de meados do ano passado agrupei em 6, por motivos didáticos) e os 12 Valores e Princípios do PSD, colocados em destaque na página de seu Diretório Nacional (lá estão em tópicos, que numerei aqui também para facilitar a compreensão):

 

11 princípios da IDC (agrupados em 6)

Valores e Princípios (2011)

Identidade política centrista, com rejeição a qualquer forma de extremismo (Princípio 4), promovendo o desenvolvimento inclusivo por meio do diálogo e do consenso (Princípio 11);

 

Na “Declaração de SP” (2025):

Governabilidade e reforma política

10. O PSD não fará oposição pela oposição. Faremos política para ajudar o Brasil. Nossos adversários não são inimigos a eliminar, mas cidadãos com os quais vamos dialogar, sem violências ou radicalismos.

4. O PSD defende o voto distrital, começando pelos municípios com mais de 200 mil eleitores;

Elaboração e divulgação de posições comuns entre os membros, com base na promoção dos direitos individuais segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos (Princípio 2);

 

Na “Declaração de SP” (2025):

Os eixos “Declaração de SP” são uma síntese deste princípio

11. temos democracia, direitos, liberdade, conquistas e avanços sociais, mas temos ainda enormes desigualdades sociais, fome e injustiças.

Articulação internacional entre partidos alinhados ao humanismo integral, pautado em valores como verdade, liberdade, responsabilidade, justiça e solidariedade (Princípio 3);

 

Na “Declaração de SP” (2025):

A definição de “Concertação Democrática”

5. Defendemos a livre iniciativa, a propriedade privada e a economia de mercado e um Estado regulador e democrático, centrado nas suas prioridades sociais;

Resposta aos desafios da sociedade global moderna, buscando o desenvolvimento humano sustentável, com conciliação entre interesses privados e públicos, além da preservação ambiental (Princípios 8 e 9);

 

Na “Declaração de SP” (2025):

Desenvolvimento econômico sustentável

Políticas sociais eficientes

Transição energética pragmática

8. a preservação do meio ambiente para sobrevivência no homem e da vida no planeta, pois é possível alargar fronteiras de produção de maneira sustentável e responsável;

6. politicas sociais para quem precisam, mas a inclusão social depende da geração de empregos modernos e profissionalizados, (por isso conta com importantes lideranças sindicais de viés trabalhista) ou da criação de condições propícias para quem prefere gerir seus negócios;

7. aposta no agronegócio, que libertou do atraso as populações do campo, qualificando tanto trabalhadores quanto empresários, valorizando os pequenos produtores;

Democracia como pré-requisito para o desenvolvimento humano, político, econômico, social e cultural, tendo este padrão de qualidade na gestão pública (Princípio 6), com eleições livres, manutenção do Estado de Direito e o equilíbrio entre os 3 poderes (Princípio 7), além das formas de participação da sociedade civil (Princípio 10);

 

Na “Declaração de SP” (2025):

Modernização do Estado

2. condenação e denúncia pública da corrupção, exigindo respeito ao dinheiro público defendendo trabalhador, jovens, e família e defesa do comportamento ético e coerente;

3. exercício da política responsável, transparente, sem conluios, conchavos ou sombras.

12. sem violentar direitos e liberdades já conquistados, vamos enfrentar os pontos fundamentais que estão travando e obstruindo o desenvolvimento do Brasil, defendendo uma nova Constituinte (seria em 2014)

Incentivar a participação de grupos sub-representados na vida pública, como mulheres e jovens, garantindo a dignidade e rejeitando qualquer forma de discriminação (Princípio 1), promovendo a integração de todos na sociedade, começando pela família (Princípio 5).

 

Na “Declaração de SP” (2025):

Governabilidade e reforma política

9. exige a exposição clara de todos os impostos ocultos nos preços na nota fiscal, para que o cidadão, alerta e ativo, possa exigir receber de volta transparência e serviços de qualidade;

1. defesa das liberdades de expressão e opinião e ao direito do cidadão à informação, e contra qualquer tipo de controle da mídia

 

Tomando a coluna com os princípios agrupados da IDC como referência, pode-se dizer que o primeiro, sobre identidade centrista, possui correspondência direta no que o PSD compromete-se em não fazer “oposição pela oposição” e defende o voto distrital, que na “Declaração de São Paulo” torna-se “distrital misto” em seu primeiro eixo, Governabilidade e reforma política, ambas direcionadas à desconstrução da radicalização e foco em problemas concretos, que só podem ser percebidos pelo cidadão comum na esfera local (a descentralização foi uma estratégia importante na desnazificação alemã). Na última linha tem-se algo complementar, o incentivo à ampliação dos atores envolvidos na vida pública, sendo que o PSD traz a transparência tarifária como incentivo à participação dos cidadãos, e para isso torna-se pré-requisito a liberdade de imprensa e de expressão.

Nas bandeiras do princípio “Resposta aos desafios da sociedade global moderna” da “Internacional” centrista, temos nos social-democráticos a importância das questões ambientais e nossos potenciais produtivos (principalmente no agronegócio) não estarem em conflito, correspondentes ao “Desenvolvimento econômico sustentável” e à “Transição energética pragmática” reafirmados no encontro internacional do final do ano passado. Também, em consonância com este conjunto de pautas da IDC, temos no PSD a defesa da inclusão via empregabilidade, sem desconsiderar a assistência social para situações urgentes, que tem seu paralelo na “Declaração de São Paulo” nas “Políticas sociais eficientes”.

Sobre a “Democracia como pré-requisito para o desenvolvimento humano, político, econômico, social e cultural”, estatutária na organização internacional multipartidária, temos desde os Princípios e Valores iniciais do partido brasileiro a “condenação e denúncia pública da corrupção”, responsabilidade e transparência como principal garantia do bom serviço público, e a defesa de reformas estruturais no Estado (na primeira metade da última década, defendia uma nova “Constituinte”). Estas bandeiras vão diretamente em favor da “Modernização do Estado” defendida no último mês de novembro como eixo da “Concertação Democrática”, assim como as dos parágrafos anteriores.

Sobre os princípios da IDC que ficaram faltando, sobre busca de alternativas entre seus membros para o cumprimento das garantias expressas na “Declaração Universal dos Direitos Humanos”, que no PSD são postas como combate às “desigualdades sociais, fome e injustiças” sem comprometimento das liberdades democráticas (políticas e econômicas), este conjunto dos três documentos trata de todas as derivações deste problema. Já a “Articulação internacional entre partidos” trata da interlocução entre diferentes partidos para a implementação efetiva de um projeto de sociedade (nacional ou global), cujo modus operandi é a própria “Concertação Democrática”.

Aqui espera-se e deseja-se o questionamento de pontos deste quadro comparativo (esta é a graça da coisa!), pois, apesar de parecer clara a correspondência entre os princípios e os eixos, sabidamente os paralelos podem ser reencaixados; o importante é o entendimento de que podem. Um aprofundamento sobre estas agendas comuns resultaria em textos e mais textos, porém o que tentei aqui foi um começo de conversa, de vários que podem ser propostos por outros. Do programa de um partido espera-se coerência histórica, e o PSD mostrou isso, mas também exige revisões conforme o contexto histórico, o que o partido também mostra, e inserção internacional, pois não há como pensar o desenvolvimento de um país de modo isolado.

PSD e o “não alinhamento” incondicional

Seguindo a ideia de que as forças políticas se explicam pela busca de votos e recursos para resolver problemas objetivos de seus eleitores, estes heterogeneamente distribuídos na estrutura federativa, além de acumular influência para dar aos projetos de lei e de políticas públicas contornos favoráveis àqueles que as escolheram, pode-se dizer que o PSD encarna estes procedimentos de forma exemplar. Esta visão da dinâmica política, descentralizada e basicamente econômica, defendida por Silvana Krause e Paulo Peres, conforme foi descrito no texto introdutório à série Coalizão dos “não alinhados”, mostra-se absolutamente explicativa para os chamados partidos de centro, e a partir dela fez-se este esboço sobre a legenda liderada por Gilberto Kassab e sua respectiva Fundação Partidária.

Apesar de hoje identificar-se como centro-direita, algo legítimo e que corresponde ao desejo de boa parte do eleitorado brasileiro (sem incorrer em incoerência programática), entre os 8 partidos abordados neste projeto, junto ao MDB é o que reúne melhores condições de independência na polarização, sem precisar adotar o discurso de “nem um, nem outro”; simplesmente se apresentar como alternativa, sem fechar portas, o que é saudável para nossa democracia.

Os próximos a serem abordados, Republicanos, União Brasil e Progressistas, são oriundos da direita tradicional, que, num processo de adaptação, tanto em relação à vontade popular dos últimos 40 anos quanto à dinâmica democrática descentralizada (tendo que se adequar a diferenças regionais), tornaram-se cada vez mais moderados, mais compatíveis com o Centro Democrático. Hoje, conseguem manter cooperação tanto com forças bolsonaristas quanto lulistas, em ministérios, governos estaduais, no parlamento, compondo o conjunto de forças não “alinhadas ideologicamente” tão importantes para o equilíbrio na arena política e para a possibilidade constante de alternância de poder.

 

Até o próximo

 

Marcos Rehder Batista, pesquisador do CEAPG - FGV e do CPTEn - Unicamp, foi coordenador de Formação e coordenador-adjunto de Articulação Política do Direitos Já! Fórum pela Democracia.

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