Caiado e o conservadorismo na democracia liberal
Caiado e o conservadorismo na democracia liberal
Marcos Rehder Batista*
É inegável que a escolha de Ronaldo Caiado para pré-candidato à Presidência da República pelo Partido Social Democrático, anunciada na última segunda-feira, causou um múltiplo impacto na esfera pública. Bolsonaristas, obviamente, esperneando porque sabem que é uma liderança conservadora muito mais consistente que toda a “Família Bolsonaro” junta, pois figuras caricatas que emergiram na onda do ex-presidente não se destacarão tanto no entorno do ex-governador goiano (não é um cara que oferece “cloroquina pras emas”). Não adere às bandeiras de comportamento das agendas social-democratas e social-liberais, pois é um conservador, com uma postura distante do status quo cosmopolitano. A esquerda, apesar de vê-lo como aliado por disputar votos com a aposta do Partido Liberal, sabe que ele tem capacidade de realização; não se resume a discursos espalhafatosos.
Caiado surgiu na cena nacional ao liderar o setor agropecuário durante
a Constituinte do final dos anos 1980, num esforço para pôr limites aos
critérios da reforma agrária, garantindo a segurança jurídica na estrutura
fundiária. Todos os setores da sociedade brasileira, aliás, se mobilizaram
naquele momento para pressionar por suas demandas, de modo democrático, assim
como ele o fez. Nas eleições de 1989, não era ele o candidato “vinculado” ao
regime autoritário; quem cumpriu esse papel foi Paulo Maluf. Foi deputado,
senador, governador, sempre articulou pela direita, dentro dos limites do
Estado Democrático de Direito. Em suma, é uma liderança da direita democrática,
muito distante de arroubos reacionários antidemocráticos aos quais alguns estão
o associando recentemente, com uma história muito mais firme no conservadorismo
do que os corneteiros do Flávio.
Podemos questionar se realmente será candidato pelo partido certo. O
PSD concentra lideranças no liberalismo moderado, algumas com maior tendência
ao social-liberalismo, perfil no qual se enquadrava perfeitamente Eduardo
Leite, e é natural que, num primeiro momento, esses grupos mais focados nas
realidades das grandes cidades que apoiavam o gaúcho esbocem alguma resistência
interna. Por outro lado, trata-se de um partido que possui prefeitos,
vereadores e deputados estaduais espalhados pelo país, e que respeita acordos e
posicionamentos múltiplos (muitos deles já estavam firmados, inclusive), não
apenas de parlamentares federais que amam câmeras e microfones, mas também de
lideranças locais que representam a base da sociedade — e desta sociedade do
“Brasil profundo”, de abrangência realmente nacional, Caiado entende. A
“democracia liberal”, em uma República Federativa, precisa ser ampla, geral e
irrestrita (mais adiante volto a estas três palavras), atender a todos os entes
da Federação.
O desafio para começar a conquistar essas lideranças que preferiam o
governador do Rio Grande do Sul reside também em responder às pautas delas. Não
se trata meramente de um agregado dentro da estrutura partidária: também há
estes, mas inclui colunistas de grande alcance, economistas que já estiveram em
postos gigantescos na máquina pública (Banco Central, Min. da Economia),
empresários tão grandes quanto os que o apoiam, lideranças da sociedade civil
(sobretudo do mundo digital) do centro no espectro ideológico e atores
políticos que, inclusive, já foram da esquerda e, ao longo de décadas,
amadureceram um posicionamento liberal com preocupação social. Caiado terá algo
consistente para ganhar a confiança deles? Falar que fez isso e aquilo em Goiás
diz muito pouco sobre os problemas que engajam cariocas, paulistanos e
recifenses. Quer ganhar essa confiança? Francamente, não vejo por que desdenhar
da importância desses atores, e também não o vejo fazendo isso, apesar de, até
agora, pautar a agenda de um outro eleitorado...
Essa sinalização pode ser importante para o crescimento dessa
candidatura, mas vejo como definitivamente crucial para o aprimoramento da
democracia brasileira. Desde a redemocratização, sempre houve uma considerável
parcela conservadora entre nossos cidadãos, desorganizada e disforme, com pouca
profundidade programática, que ganhou corpo sob uma liderança igualmente
atrapalhada, incoerente e rasa; “combatia” e demonizava o “sistema” exatamente
porque era incapaz de agir dentro da civilidade institucional. Caiado pode
ocupar esse campo, que possui inegável base social, trazendo soluções aos
questionamentos dos mais diversos vieses, ao invés de “mitadas”.
Se ele souber dizer como sua bandeira dos complexos agroindustriais
pode contribuir com as metas do Acordo de Paris e como esse setor pode não
dificultar a recuperação do volume dos rios, pode ter a confiança dos que
defendem a sustentabilidade. Se conseguir deixar claro que seu conservadorismo
não fere o gênero nem a ancestralidade de ninguém, tira as pedras das mãos dos
movimentos identitários menos entrincheirados. Caso consiga mostrar que suas
políticas de inclusão socioeconômica em Goiás apontam para uma estratégia
nacional (realidade muito mais complexa que a de seu estado), consegue o
respeito dos social-liberais. Todos esses grupos existem no PSD e em outros
partidos do bloco de centro. Trazer respostas para essas pautas não o faz menos
conservador; Schwarzenegger mostrou isso na Califórnia, estado que “reúne”
“Goiás” e “Rio de Janeiro” no mesmo território... e só não foi presidente
porque nasceu na Áustria.
É notório que, na largada, Caiado, com uma proposta liberal na economia
e conservadora nos costumes, optou por falar com quem pertence à atual direita,
assim como Aldo Rebelo vem fazendo, com ideias mais
nacional-desenvolvimentistas. Muitos dos setores que ficaram insatisfeitos de
segunda-feira para cá têm calafrios quando falam da tal anistia “ampla, geral e
irrestrita”, algo compreensível para qualquer liberal: multidões passaram
festas de fim de ano acampadas em quartéis, torcendo pelo anúncio de uma ditadura,
e negar que essa era a intenção seria de um negacionismo que não combina com um
democrata. Bom, também é verdade que, mesmo fora do bolsonarismo, não há
unanimidade sobre o que foi o “8 de janeiro”, nem sobre a justiça das penas
aplicadas. Conectá-los a um verdadeiro ator político (não apenas um líder da
direita populista, mas um articulador equilibrado e eficaz) pode ser um bom
começo para virar essa página indigesta e atrapalhada. Um gesto de recomeço sob
“nova direção” pode trazê-los à civilidade e botar quem os colocou ali no
ostracismo livre de onde vieram.
Parece um pouco difícil definir o que, de fato, é a chamada “democracia
liberal”: independência dos três Poderes, liberdade de opinião e expressão,
sistema representativo com eleições limpas, multipartidarismo etc. Um conjunto
de princípios que precisam funcionar como sistema de governança, com normas
capazes de garantir a qualquer cidadão a possibilidade de articulação em grupo
para a defesa de algum interesse ou crença compartilhada, além de moderar a
disputa entre os diversos grupos que naturalmente surgem. Talvez falte em nosso
tabuleiro um espaço digno para os conservadores em nossa arena
político-institucional.
Tanto para Ronaldo Caiado (e seus apoiadores de primeira hora) quanto
para os que defendem, acima de tudo, a Democracia Liberal, conseguir assentar
as questões acima pode ser o grande desafio que, se aceito, contribuirá muito
para ambos. Fazer essa mediação é da natureza do PSD, podemos ver isso.
Interlocução não acarreta necessariamente apoio ou parceria, mas uma
redefinição de termos, consensos mínimos, com maior ou menor aproximação. É
esperar para ver.
* Marcos Rehder Batista, sociólogo, pesquisador em Governança Pública e Privada e em Desenvolvimento Econômico Sustentável

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