Coalizão dos “não alinhados” II: Fundação Ulysses Guimarães, MDB


Foto: (Arquivo/Estadão)

Coalizão dos “não alinhados” II: Fundação Ulysses Guimarães, MDB

Marcos Rehder Batista*

É preciso admitir que, após a redemocratização, nenhum outro partido brasileiro conciliou de modo tão consistente ser um parceiro “não alinhado” incondicionalmente de governos em que não foi “cabeça de chapa” e, mesmo assim, sempre contar com um conjunto robusto e coerente de propostas próprias para o país, em volumes programáticos amplamente compartilhados por intelectuais do mais alto prestígio. Inclusive agora, mesmo sem ter no horizonte uma candidatura própria para o Planalto em 2026, em 2025 materializou, em debates pelo país todo, o projeto O Brasil precisa pensar o Brasil, que já acontecia no YouTube desde o começo da pandemia e se transformou em seu novo Programa Partidário.

Esta postura colaborativa em nível federal, sem abrir mão de ideias próprias, proporcionou ao MDB influência ímpar na conformação do Estado brasileiro: antes de 1985, com as bases da Constituição de 1988 já visíveis no seu manifesto pré-Diretas Já, intitulado Esperança e Mudança, diagnóstico extenso de 1982, uma espécie de manual do Estado de Bem-Estar Social que marcou o projeto nacional até 2019; junto à Presidência da República, dentro do sistema democrático, tanto ocupando a chefia do Estado (Sarney e Temer) quanto assumindo ministérios em todos os governos de 1985 para cá; e, em todos os governos, passando a maior parte do tempo como um “colaborador crítico” dentro do Congresso, mais afeito a modificar projetos do Executivo do que simplesmente barrá-los (com raras exceções, uma delas foi em 2016, contundente!).

Sua forte presença espalhada pelos municípios, com vereadores e prefeitos em grande número em todas as regiões do país, conforme foi argumentado na introdução a esta “Série”, torna o partido extremamente heterogêneo. Mesmo com extrema capilaridade, atuação marcante na arena federal e tendo sempre à mão um projeto de país consistente e legitimado por algumas das mentes mais brilhantes que temos, talvez sua diversidade regional e ideológica dificulte a viabilidade em campanhas presidenciais diretas, pois nunca conseguiu vencê-las como cabeça de chapa. Por outro lado, a penetração do MDB em todas as camadas de nossa arena pública faz de seu órgão de formulação e formação, a Fundação Ulysses Guimarães, uma verdadeira bússola para nossos partidos de centro, vide a ampla aceitação do guia elaborado para o governo Temer, elaborado por ela em 2015, um dos planos para o país com menor resistência na história da Câmara e do Senado.

Sendo assim, esta fundação será a primeira a ser tratada nesta série sobre as propostas para o Brasil apresentadas nos órgãos de formulação e formação dos oito partidos do Bloco Parlamentar dos “não alinhados”: MDB, PSD, Republicanos, União Brasil, Progressistas, PSDB, Cidadania e Podemos. Maiores detalhes sobre como estes partidos são entendidos em conjunto em nossa arena política foram descritos na introdução, compartilhada no final do mês passado, onde os principais referenciais na ciência política nacional usados para pensar este campo político foram debatidos. Meu esboço introdutório da série Coalizão dos “não alinhados” pode ser lido em:


Coalizão dos “não alinhados” I: entre a cooperação e a “contestação pública”

https://marcosrehderbatista.blogspot.com/2026/03/coalizao-dos-nao-alinhados-i-entre_24.html


Segue a organização dos conteúdos encontrados atualmente no site da Fundação Ulysses Guimarães - FUG, conforme os critérios prioritários indicados no texto do link acima. Depois, será feita uma breve apresentação do novo Programa Partidário do MDB, que já abordei em um artigo no Instituto José Bonifácio e na Revista Será ano passado; outro motivo pelo qual começo por este partido é que comecei a discutir os partidos individualmente por ele já no ano passado, em textos esparsos que deram forma à presente iniciativa.

 

Por que primeiro a Fundação Ulysses Guimarães

Como expus no artigo introdutório, primeiro tratarei das “Fundações” de partidos que assumiram ministérios neste Governo Federal e no anterior, cujas respectivas forças protagonizam uma forte polarização. Começar pelo MDB acontece por três motivos básicos: a elaboração decente de um novo conjunto programático; por consequência, eu já ter tratado deste processo no ano passado; e por tratar-se de uma força política que concentrou os defensores da redemocratização desde o estabelecimento do “bipartidarismo obrigatório”, instituído sob o autoritarismo do Regime Militar.

Sobre o processo de elaboração do novo programa partidário Caminhos para o Brasil, título final da série de encontros iniciados no período da pandemia, intitulada O Brasil precisa pensar o Brasil, talvez pela construção de um diálogo profícuo com seu coordenador-geral nos últimos quatro anos, Aldo Rebelo, acabei acompanhando mais assiduamente estes trabalhos. Escrevi a respeito assim que se optou por transformar o “Pensar o Brasil” em um conjunto programático coeso; no 1º semestre do ano passado escrevi a respeito e, novamente, após todos os encontros preparatórios encerrados, escrevi outro, às vésperas de seu lançamento, em outubro último.

Em relação ao último dos três motivos, o peso histórico do MDB, assim como foi em sua criação, continua agregando lideranças mais ao centro-esquerda e ao centro-direita, muitas vezes variando de viés conforme a região (e, mesmo assim, capaz de nos oferecer um projeto de país amplamente debatido). Analisar seus posicionamentos exigiria não apenas um aprofundamento sobre o “Caminhos para o Brasil”, que não cabe neste escopo, assim como sobre seu estatuto e o da FUG, algo que será aprofundado após a série, pois pretende-se um primeiro passo para a maturação de uma longa agenda de pesquisa. Neste momento, a prioridade é apontar onde estão as informações consideradas fundamentais no framework sobre Fundações Partidárias apresentado na já mencionada introdução desta empreitada. Até por ser o primeiro, esperam-se correções analíticas ou informações relevantes que não foram percebidas... aqui temos só um primeiro passo.

 

Ações fundamentais de formulação e formação da Fundação Ulysses Guimarães

Esta fundação é realmente rica em conteúdo, com participação de pesquisadores renomados das mais variadas áreas e matizes, em muitos tipos de ações, tanto para discussão de políticas públicas como formação para a boa implementação destas, além de aulas e textos sobre a história e a linha política do partido (prefiro falar em “linha política” em vez de doutrina, algo dogmático demais para o espírito democrático). Trago aqui uma breve apresentação deste universo disponível no site da Ulysses Guimarães, um guia para quem desejar se aprofundar a respeito, seguindo os oito tópicos selecionados da proposta de Fernandes e Dantas apresentada na introdução à Série Coalizão dos “não alinhados”, subdivididos em “A. Critérios Estruturais” (i. “áreas temáticas” prioritárias e ii. “atuação em rede com outras instituições”) e “B. Pesquisa, Divulgação e Formação” (i. Pesquisa, ii. Eventos, iii. Publicações, iv. Cursos de formação, v. Arquivos de memória e vi. Mídia e Tecnologia).

 

A. Critérios Estruturais (“áreas temáticas” e “atuação em rede com outras instituições”)

Até por determinação legal, assim como todos os partidos, o MDB desenvolve projetos sobre mulheres e afrodescendentes na política. Aliás, no já citado documento “Caminhos para o Brasil” há respostas para uma vasta gama de pautas. Entretanto, no site da Fundação Ulysses Guimarães dá-se relevância prioritária a duas áreas: Educação, com o projeto “Educação para o futuro”, e três projetos sobre Gestão das Cidades. Começando pelo projeto Cidades Resilientes, focado na resiliência dos municípios diante das mudanças climáticas, ele gira em torno de uma “Nota Técnica” e um “Manual de Boas Práticas”, bastante conectados com o trabalho da Defesa Civil. Um segundo projeto, o Mobilidade Humana, que trata sobre os diferentes movimentos populacionais, desde os que acontecem dentro de um município até fluxos de imigração e emigração e, inclusive, oferece um curso (que também poderia ser apresentado aqui como “curso de formação”, mas, por tratar de uma agenda específica considerada prioritária pela FUG, optei por falar dele aqui). Por último, a “Fundação” destaca o programa “Caminhos da Cidade”, que tratarei com mais detalhes no item “iv. Cursos de formação”. Vale também registrar o Mapa do Bem, um observatório que traz experiências consideradas exitosas pelo MDB em suas gestões, em nível estadual e municipal.

Dada a diversidade e a solidez das relações institucionais de seus principais atores políticos, torna-se um pouco difícil enumerar entidades parceiras do MDB e da FUG. Eles possuem relação com alguns dos principais centros de pesquisa do país e mais influentes entidades de classe, como FIESP, CNI e CNA (patronais), e lideranças sindicais de trabalhadores. No que tange às relações internacionais, o partido possui relações construtivas com a rede diplomática brasileira e, recentemente, lançou o primeiro volume da FUG Global, iniciada há menos de um mês.

Em suma, só para falar da agenda programática defendida pela “Fundação” seria necessária uma série em separado e, sobre a formulação de sua síntese programática Caminhos para o Brasil, como foi adiantado, já escrevi. Interessante é que, apesar de possuir um projeto amplo para o país, a FUG tem um consistente conjunto de propostas locais, nos níveis municipal e intermunicipal (este, no projeto “Mobilidade Humana”), o que confirma a preocupação municipalista do MDB.

 

B. Pesquisa, Divulgação e Formação

  1. Pesquisa (atividades de pesquisa acadêmica apoiadas): toda a formulação do Caminhos para o Brasil contou com intensa participação de alguns dos mais renomados pesquisadores brasileiros, sobretudo os com experiência no poder público. Em todo caso, há de se destacar que a FUG disponibiliza edital de fomento para financiamento de projetos e para cursos de graduação e pós-graduação, preferencialmente nas áreas de Gestão Pública, Marketing, Gestão Ambiental, Serviços Notariais e de Registro, Ciências Sociais, Comunicação e Tecnologia;
  2. Eventos, Seminários e Congressos (eventos com pesquisadores e lideranças — políticas e civis — tratando de temas que “tenham afinidade com seus valores e missão”): existe um rico repertório de eventos e debates organizados quase que mensalmente pela FUG, com ampla maioria disponível em seu canal no YouTube, destacando-se a já mencionada série O Brasil precisa pensar o Brasil, que deu origem ao programa Caminhos para o Brasil, além do edital de projetos apontado no item anterior, focado, sobretudo, na realização de seminários e congressos;
  3. Publicações (revistas, relatórios de formulação e newsletters com os resultados das pesquisas e eventos): além da recém-criada revista FUG Global, há de se destacar a Revista Ulysses, de periodicidade geralmente anual, e os boletins Radar Analítico (retomado no ano passado) e Politizar (descontinuado em 2024) — apenas em 2026 já constam mais de oito publicações diversas;
  4. Formação (cursos e programas de formação para suas lideranças e/ou cidadãos em geral, sobre os conjuntos de doutrinas orientadoras do partido e boas práticas de gestão/governança): se apresenta inúmeros seminários com especialistas nos mais diversos temas e uma recente elaboração acerca de seu conteúdo programático, existem pelo menos 21 cursos de formação (nas mais variadas áreas, de orçamento público até mulheres na política) disponíveis na plataforma da “Fundação”, com destaque dado na página inicial da FUG para a Escola de Líderes e a Escola para Candidatos, ambos voltados para a formação pessoal de lideranças de “centro”. No já citado Caminhos da Cidade, há uma trilha de conteúdos sobre as principais áreas da administração pública com foco nos municípios, de “meio ambiente” a “desigualdade social”, como orientação para os diretórios municipais prepararem programas de governo para as eleições de 2024;
  5. Arquivos de memória (acervos organizados sobre o histórico da instituição, proposições de lideranças do partido e/ou sobre as trajetórias destas personalidades simbólicas): mesmo que se tenha uma visão crítica em relação ao partido (o que não é meu caso), é inegável o protagonismo do MDB nos últimos 60 anos de política no Brasil, tanto como refúgio institucional de todos que se opuseram ao Regime Militar (visto que, no que pode ser considerado a linha programática da redemocratização apresentada em “Esperança e Mudança”, a maioria das lideranças e intelectuais que colaboraram foram para outros partidos, como PT e PSDB). E, “passando o olho” no arquivo histórico da FUG, fica bem claro que o MDB valoriza sua história, com um acervo que, de tempos em tempo, deve ser revisitado, com materiais sobre charges de cada época até grandes articulações que estabeleceram nosso Estado Democrático de Direito;
  6. Mídia e tecnologia (ferramentas digitais que permitam acesso aos conteúdos anteriores, como “esforço de comunicação e difusão”, concretizando conexão com filiados e sociedade em geral): todo o conteúdo formativo e de formulação exposto acima é amplamente divulgado em canais nas principais plataformas de redes digitais usadas atualmente, como Youtube, Facebook, Instagram, X, LinkedIn e Spotify.. Também os cursos, em quase toda sua maioria, são oferecidos em plataformas da própria FUG, na plataforma Escola em Movimento.

 

... e qual seria o resumo das impressões...

Enquanto agregação de forças que se opunham ao Regime Militar, por meio de uma abordagem política e uma postura moderada (o que, para mim, é um elogio), isso parece continuar no DNA do MDB e, por consequência, da Fundação Ulysses Guimarães. Isso fica muito visível quando não encontramos um leque claro de colaboração com outras instituições, mas com atores protagonistas em algumas das mais importantes atuando no país, de universidades a embaixadas, entidades representativas patronais e laborais.

Em todo caso, retirado este critério apontado por Fernandes e Dantas (melhor descrito no texto introdutório), todos os demais surgem com altíssima consistência e em grande volume. Inclusive, trazendo alguns conteúdos que podem agradar atores mais progressistas e outros mais conservadores, o que permite ressonância com os mais vastos espectros que podemos encontrar no Congresso Nacional, que, em nível nacional, é a principal esfera de atuação do partido (e desta força na atuação legislativa emana a presença do MDB em todos os governos pós-redemocratização).

Como se espera demonstrar até o final da Série Coalizão dos “não alinhados”, o que será escrito aqui sobre cada um dos 8 partidos do recorte escolhido traz conteúdos que exigirão ser revisitados, e, com o MDB, isso claramente é patente.

Até o próximo!

 

Marcos Rehder Batista, pesquisador do CEAPG - FGV e do CPTEn - Unicamp, foi coordenador de Formação e coordenador-adjunto de Articulação Política do Direitos Já! Fórum pela Democracia

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