Coalizão dos “não alinhados” IV: a Fundação Índigo e o União Brasil no realinhamento da centro-direita

Fonte: https://www.logospng.org/logo-uniao-brasil/

Coalizão dos “não alinhados” IV: a Fundação Índigo e o União Brasil no realinhamento da centro-direita

Marcos Rehder Batista

A Federação União Progressista, através da qual União Brasil e Progressistas comprometem-se a agir em conjunto pelos próximos 4 anos, foi aprovada no final de março deste ano. Trata-se de um movimento de extrema relevância na reorganização do campo da “centro-direita” nacional, dado que os 2 partidos são os herdeiros diretos da antiga ARENA e, ao longo das 4 últimas décadas, foram paulatinamente assumindo posturas moderadas, a ponto de participarem tanto dos governos petistas quanto do bolsonarista. Depois de serem discutidas as agendas de formulação e formação do MDB e do PSD, que ao longo do tempo buscaram ocupar o espaço de “centro” puro, a série Coalizão dos “não alinhados” tratará dos partidos da direita moderada que compunham o Bloco Parlamentar da Câmara (União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, PSDB, Cidadania e Podemos): os 2 da nova federação e o Republicanos.

União Brasil e Progressistas já ensaiaram até mesmo um processo de fusão, entre 2021 e 2022, que, apesar de não ter sido concretizado, teve o diálogo continuado, conduzindo à formalização da Federação. Esta relação está tanto imersa numa dinâmica histórica, que será resgatada na introdução deste artigo sobre o União Brasil e sua Fundação Índigo, quanto em sua agenda atual sistematizada nos documentos desta institucionalização em si, que será trabalhada na introdução do próximo texto, sobre o Progressistas e sua Fundação Francisco Dornelles.

Conforme matéria da CNN no momento de sua aprovação, a Federação contava com 109 deputados, 15 senadores, 6 governadores, 186 deputados estaduais (mais 4 distritais, no DF), 1.335 prefeitos (aproximadamente 25% dos prefeitos, sem contar os 1.183 vice-prefeitos) e 12.398 vereadores. Traduzindo: tem uma legitimidade da vontade popular inquestionável, uma representação gigantesca na esfera federal e uma capilaridade maior ainda pelo país, e precisa ser protagonista em qualquer iniciativa de aperfeiçoamento de nossa estrutura federativa. Por isso, um panorama de como estas forças políticas foram constituídas ao longo da Nova República iniciada nos anos 1980 e do que defendem em suas Fundações Partidárias torna-se crucial na definição dos rumos da Democracia.

Uma pesquisa que especialmente orientou este breve mapeamento tanto dos 2 partidos quanto das relações históricas entre eles foi a desenvolvida pelo Grupo de Estudos Legislativos – LEGIS, do programa de pós-graduação em Ciência Política da UFBA. Ela foi apresentada no 14.º Congresso da Associação Brasileira de Ciência Política, em 2024, por Alice Barreto Santos, Carla Galvão Pereira e Roberta Resende; esta última realizou seu doutorado sob orientação de Silvana Krause, uma das principais referências de toda esta série sobre os partidos de “centro”. As autoras partem da interpretação evolucionária feita por Paulo Peres da abordagem de Duverger, explicando o comportamento dos partidos por suas origens, recorrendo complementarmente à tipologia de Panebianco sobre as diferentes formas de gênese destas organizações para compreender os processos de fusão. Esta ponte entre estas abordagens fez-se necessária porque Duverger não trata das fusões interpartidárias, e antes de formarem a Federação, União Brasil e Progressistas já consistiam em fusões entre outros partidos.

Aliás, conforme elas sistematizam com bastante clareza, ambas as legendas são reaglutinações de uma fragmentação da direita após a redemocratização, durante os anos 1980, com a dissolução da ARENA em vários partidos (e mesmo o surgimento de outros), cada um se relacionando com as administrações federais com maior ou menor vínculo, variando conforme o contexto. Por em nenhum momento perderem a representatividade no parlamento e nas demais esferas da federação (estados e municípios), este campo político ganhou maturidade gerencial e flexibilidade na interlocução com todas as forças políticas que passaram pelo Planalto, de modo completamente “não alinhado”, estabelecendo cooperação e “contestação pública” de acordo com as demandas programáticas trazidas pelas bases (urgências de investimento e opinião pública).

Neste sentido, não seria nenhum exagero afirmar que, com os dois partidos firmando esta parceria por 4 anos (e tudo indica que irá durar mais tempo que isso), temos o fechamento de um ciclo, que consiste na estabilização de uma “centro-direita” moderada e democrática, permitindo a este espectro ganhar consistência para oferecer uma proposta conjunta de país e estimulando a redução do número de partidos, algo incentivado por iniciativas como a “cláusula de barreira”. Por isso, uma atenção ao que União Brasil e Progressistas têm trabalhado em suas “Fundações” de formulação e formação mostra-se tão importante. Na sequência deste artigo tratarei da formação do União Brasil, suas propostas e, por fim, de como elas são apresentadas na Fundação Índigo e, no próximo, do Progressistas e da Fundação Francisco Dornelles.

 

União Brasil: da dissidência udenista ao descolamento do bolsonarismo

“Nascido da fusão de dois partidos fortes e em ascensão – DEM e PSL –, o União Brasil é um somatório de forças que tem como propósito SERVIR de base, de instrumento, de caminho para a pacificação, o entendimento, o diálogo construtivo, a conjunção de esforços que são imprescindíveis para a prosperidade e a paz que os brasileiros desejam e merecem ter” Manifesto de fundação do União Brasil, 2022

Como pode ser bem observado no trecho retirado dos “Princípios e Valores” defendidos na época de sua fundação, o União Brasil formou-se como alternativa moderada na direita, propondo-se ao diálogo e à cooperação com as demais forças e à rejeição da polarização. Fundado em 2021 e aprovado pelo TSE em 2022, foi resultado da fusão do DEM com o PSL, dois partidos que, mesmo com trajetórias distintas, como bem descreve a pesquisa do LEGIS, têm sua gênese na fragmentação do PDS (ex-ARENA), que concentrava as lideranças de direita no início dos anos 1980.

O DEM tem sua gênese em meados dos anos 1980, sendo a mais robusta das dissidências do PDS, composta por quadros mais moderados e que se alinharam a antigos adversários do regime militar, tanto que em sua fundação recebeu o nome de Partido da Frente Liberal – PFL. Em meados da primeira década deste século passou por mais um movimento de renovação, focado em tornar-se ainda mais moderado, em um processo de refundação, o que também acarretou a mudança de nome para Democratas – DEM. Esta renovação foi marcada pela renovação de seus quadros e, principalmente, pelo aperfeiçoamento de seu compromisso com a Democracia.

Já o PSL, fundado em 1994, era um partido pequeno e, até 2018, teve em média 10 deputados estaduais e 1 federal, até que filiou o deputado Jair Bolsonaro para que concorresse à presidência. Com discurso radical e antissistema, característicos de várias forças outsiders que se intitulavam “nova direita” em vários países do mundo (muito em virtude do trumpismo), com a eleição de Bolsonaro o PSL saltou para 3 governadores, 53 deputados federais, 74 deputados estaduais e 4 senadores. Como o partido não aderiu ao radicalismo do então presidente, este se desfiliou já no primeiro ano de mandato e, com a já esperada saída de algumas lideranças eleitas na onda bolsonarista, permaneceram os setores mais moderados, planejando-se a fusão com o DEM a partir de 2022.

O novo partido surgiu como uma grande força política em processo de amadurecimento e ganho progressivo de consistência programática. Já em seu primeiro ano disputando votos, elegeu no legislativo federal 5 senadores (com os que estavam na metade do mandato, somavam 12) e 59 deputados federais, para os estados 4 governadores e 100 deputados estaduais, mesmo sem adesão incondicional a nenhum dos lados da polarização; foi o 2.º que mais elegeu senadores, o 3.º entre os deputados federais e, junto com o PT, o que mais elegeu governadores. Dois anos depois, nas eleições municipais de 2024, o União Brasil elegeu 591 prefeitos, o 4.º que mais elegeu, e 5.490 vereadores, também o 4.º. Em resumo, tem grande capilaridade local, mas é maior ainda nos níveis estadual e federal, o que aponta, ainda mais federado ao Progressistas, para um forte potencial de consolidar um projeto nacional no médio prazo, se mantiver os mesmos números nas próximas eleições. Isso nos leva à necessidade de conhecer melhor sua agenda programática, e um bom ponto de partida está já no início de seu Estatuto, em seu 3.º artigo:

“O União Brasil se declara social-liberalista, considerado forte defensor dos direitos humanos e das liberdades civis, acreditando que o Estado possa exercer na economia o papel de regulador, a fim de garantir à população acesso de qualidade aos serviços públicos essenciais e fundamentais, como saúde, educação, segurança, liberdade, habitação e saneamento. Sua estrutura interna, organização e fundamento se baseiam no respeito à soberania nacional, ao regime democrático, ao pluripartidarismo e aos direitos fundamentais da pessoa humana, observando as normas constitucionais e legais.” Estatuto do União Brasil, 2021, p. 1

Em resumo, o partido reserva ao Estado um papel “regulador” na economia, focado em estabelecer regras capazes de conduzir à efetividade e aos investimentos estratégicos para o crescimento, e sua atuação mais direta e constante deve estar direcionada para “serviços públicos essenciais e fundamentais”. Também já deixa claro, desde o início, defender a Democracia pluripartidária, mesmo sendo favorável à diminuição da quantidade de partidos, o que inclui a garantia dos “direitos fundamentais da pessoa humana”, perceptivelmente numa abordagem mais tradicional do pós-guerra, e não pelo viés identitário que esta agenda assumiu nas últimas décadas. Este conjunto programático foi descrito mais detalhadamente no Manifesto de fundação do União Brasil, lançado em 2022, quando seus 44 “Princípios e Valores” são apresentados e sistematizados em 4 “grandes princípios imutáveis e inegociáveis” (p. 6):

  • “O valor da Democracia como sistema político pautado pela tolerância, pluralidade, respeito e diálogo”: de fato, praticamente metade dos 44 “princípios e valores” reafirma o compromisso do partido com um posicionamento moderado dentro da Democracia pluripartidária e de seus 3 Poderes;
  • “O valor do Estado como garantidor dos direitos sociais básicos da população”: defende o aperfeiçoamento dos mecanismos de efetividade das políticas públicas finalísticas, como saúde e educação (esta, com esforços para igualdade de oportunidades), e coloca auxílios financeiros para a população em condições de vulnerabilidade como um socorro, e não como política de inclusão social (inclusão social é inclusão no mercado, não no consumo);
  • “O valor da Liberdade como condição para a busca de realização individual”: em vários dos 44 “Princípios”, a defesa da criação de um ambiente de negócios que estimule o investimento privado, com desburocratização dos processos principalmente para pequenas e médias empresas, é a principal aposta do União Brasil para o desenvolvimento. Um destaque especial para as cadeias de valor envolvidas pelo agronegócio, setor em que somos internacionalmente mais competitivos e que demanda uma enorme gama de insumos industriais, que pode ter um papel fundamental em nossa reindustrialização/neoindustrialização (como já defendi em outros artigos);
  • “O valor da Família como esteio da pessoa e base da sociedade”: aqui o partido deixa claro que tem convicções conservadoras na agenda de costumes, mesmo que moderada, dialogando com uma base social — sobretudo de evangélicos — que apenas recentemente conseguiu se articular politicamente, defendendo direitos socioeconômicos de populações vulneráveis sem necessariamente abraçar de modo acrítico pautas identitárias.

Apresentados os eixos norteadores do difícil alinhamento entre as lideranças dos antigos DEM e PSL, resta saber como, através das ações da Fundação Índigo, estas forças são direcionadas para um conteúdo programático coerente e agregador. É no conjunto de atividades de formulação e formação e na rede de instituições com as quais ela estabelece parcerias que se consegue ter um horizonte de como poderá se consolidar um projeto coeso de país, com o amadurecimento da atividade partidária.

 

A Fundação Índigo

A partir dos “Princípios e Valores” apontados acima, é possível prever as principais pautas de políticas públicas abordadas pelo União Brasil em seu órgão de ação política voltado para formulação e formação política de seus quadros, a Fundação Índigo. Assim como os outros 4 dos 5 partidos considerados aqui como “não alinhados”, por terem composto os ministérios de Bolsonaro e Lula (MDB, PSD, Progressistas, Republicanos e o próprio União Brasil), é marcante a prioridade para questões locais (sobretudo municipais), de tal modo que todas as discussões partem delas para o aprimoramento da estrutura federativa, e a indução do desenvolvimento começa por viés microeconômico.

Conforme estabelecido em seu já mencionado Estatuto (p. 38), com a fusão que originou o partido, o órgão de formulação e formação do DEM, Instituto Liberdade e Cidadania – ILEC, foi extinto, ficando responsável pelas atividades da Secretaria de Formação Política da Executiva Nacional do União Brasil o órgão que pertencia ao PSL, a Fundação Instituto de Inovação e Governança – Fundação Índigo. Como o próprio nome do “Instituto” define, suas principais preocupações não estão em temas específicos, mas em experiências de aprimoramento da Governança e na implementação de inovações, sobretudo para municípios. Em suma, o Estatuto define como função da Índigo “estimular e promover o debate, a pesquisa e a divulgação das questões teóricas vinculadas ao processo democrático e ao avanço social, realizar cursos e palestras, bem como se articular com o mundo da cultura” (p. 28).

Como será feito acerca de todos os 8 partidos do Bloco Parlamentar de deputados (MDB, PSD, União Brasil, Progressistas, Republicanos, Podemos, PSDB e Cidadania), segue uma descrição dos 8 critérios retirados de Fernandes e Dantas, apresentada na introdução à série Coalizão dos “não alinhados”. Estão subdivididos em “A. Critérios Estruturais” (i. “áreas temáticas” prioritárias e ii. “atuação em rede com outras instituições”) e “B. Pesquisa, Divulgação e Formação” (i. Pesquisa, ii. Eventos, iii. Publicações, iv. Cursos de formação, v. Arquivos de memória e vi. Mídia e Tecnologia).

A. Critérios Estruturais: “áreas temáticas” e “atuação em rede com outras instituições”

A concentração em governança e inovação para realidades locais fica muito clara em um dos mais importantes projetos do partido, o Brasil 2044, um hub de iniciativas ESG disruptivas de prefeituras administradas pelo União Brasil (de programas de governo a propostas legislativas). Entretanto, há de se destacar um esforço para integrar a perspectiva micro a um projeto nacional, partindo destas duas agendas, o que pode ser visto com bastante clareza, por exemplo, nas seções 1 e 2 do ciclo de palestras Brasil Melhor, no YouTube da “Fundação”.

É neste ensejo que trabalham os considerados dois grupos prioritários específicos: jovens e mulheres. O União Jovem do Brasil, órgão de ação partidária voltado à renovação geracional, apresenta programas de formação e capacitação político-estratégica como o Jovens Índigo e o Jovens pelo Brasil, da Academia de Liderança Índigo. Em relação à preparação de lideranças femininas, tanto devido à importância da agenda quanto pelas atuais exigências de cota em chapas para eleições proporcionais, o União pelas Mulheres (hoje intitulado Defesa Lilás) integra vários projetos neste setor, como um curso EAD sobre as diversas questões e políticas voltadas para o público feminino, parte do Programa Integrado de Formação Política para Mulheres.

Sobre a rede institucional em que a Fundação Índigo estrutura suas atividades, podemos dividi-la em 3 ordens diferentes de parceiros: as parcerias acadêmicas, os institutos independentes de análise política e de governança e os parceiros internacionais. Como parceiros acadêmicos, podemos destacar a FGV, com que oferece um MBA em Segurança Pública, e o Insper, onde oferece o programa de formação Jovens Índigo, além do projeto Pulso Brasil, com pesquisas do IGPP, do Prof. Paulo Guimarães, da Unicamp, e da Quaest, liderada pelo Prof. Felipe Nunes, da UFMG (e que também integrou o projeto Partidos e sistema partidário na nova democracia brasileira, coordenado em nível nacional por Silvana Krause, da UFRGS, mencionado na introdução desta série Coalizão dos “não alinhados” como principal referência deste projeto). Na relação com institutos sem vínculo com uma instituição de ensino e pesquisa de prestígio específica, a “Fundação” se conecta com a Fundação Dom Cabral, com quem desenvolve seu curso de formação de candidatos para as Eleições 2026, e realiza o curso Melhores do Brasil com o Instituto Áquila, responsável pela elaboração do Índice de Gestão Municipal Áquila e do Prêmio Cidades Excelentes (junto à TV Bandeirantes e à CNM). Quanto à inserção em redes institucionais internacionais, é importante destacar 2 iniciativas: ser membro pleno da International Democrat Union – IDU e o projeto Conexões Globais.

O partido é membro da IDU, aliança internacional de partidos conservadores moderados, dissidente da Internacional Democrata Centrista – IDC (da qual o DEM já foi membro até recentemente, assim como o PSDB, e atualmente é representada em território nacional pelo PSD), fundada no início dos anos 1980 e composta por mais de 80 partidos em 65 países. Como esta última, também é fortemente ligada à Fundação Konrad Adenauer, órgão de formulação da União Democrata-Cristã alemã, que funciona como um dos principais think tanks entre os espectros de centro-direita e centro-esquerda. Regionalmente, aliás, as duas entidades globais são representadas pela Christian Democrat Organization of America, que atua sobretudo na América Latina. Em síntese, a participação do União Brasil nesta rede internacional tanto pode incentivá-lo a pensar o Brasil, pois coloca o partido como representante nacional na IDU, como pode funcionar como elo institucional com o PSD e com o PSDB; na medida em que este último está federado com o Cidadania, indiretamente também cria esta terceira ponte.

O projeto Conexões Globais também é fundamental para compreender a pluralidade dos vínculos internacionais que vem sendo costurada pela Fundação Índigo. Em 2024, o “Conexões” levou alguns de seus prefeitos eleitos no mesmo ano para conhecer iniciativas inovadoras na cidade de Londres, mantendo o foco municipalista no União Brasil. Já em 2025, a comitiva formada por algumas de suas principais lideranças, entre deputados, senadores e gestores públicos, visitou centros de destacada liderança em inovação nos setores público e privado da China. Foram visitados programas de tecnologia de fronteira em Pequim, Xangai e Shenzhen, sobre várias áreas de políticas públicas, e pode-se dizer que se dedicou marcadamente a projetos de integração interfederativa, o que consiste exatamente no exercício de construir programas nacionais a partir de sistemas digitais que envolvem as unidades menores (em especial, os municípios). Se, por um lado, este tipo de iniciativa estabelece relações internacionais programáticas para o partido, por outro, o amadurecimento sobre as várias formas de tecnologia de ponta de integração nacional (em um país tão extenso e heterogêneo quanto o Brasil) pode levar a um projeto de país inovador.

 

B. Pesquisa, Divulgação e Formação

Mesmo com boa parte dos projetos de formulação e formação da Fundação Índigo já terem sido citados ao longo do texto, sobretudo na subseção anterior, apresentá-los conforme podem ser organizados nas 6 atividades enumeradas por Fernandes e Dantas ajuda a ter um panorama mais claro de sua atuação e capacidade de difusão. Dado que se trata de um partido recente, mas de enorme peso em nosso cenário político, este panorama geral pode auxiliar em uma melhor compreensão do União Brasil, tanto por parte do eleitor quanto dos pesquisadores da área. Seguem os 6 critérios:

  1. Pesquisa (atividades de pesquisa acadêmica apoiadas): pode-se dizer que o principal projeto de pesquisa financiado pela Fundação Índigo é o Projeto Pulso, com estudos do IGPP e da Quaest, instituições que contam com algumas das principais referências em ciências humanas do país. São estudos que analisam as prioridades apontadas pela população, de modo a servir como bússola para a escolha das áreas de políticas públicas onde o partido irá concentrar seus esforços;
  2. Eventos, Seminários e Congressos (eventos com pesquisadores e lideranças — políticas e civis — tratando de temas que “tenham afinidade com seus valores e missão”): além do Conexões Globais, podemos destacar o Prefeito de Sucesso, que reuniu mais de 600 prefeitos eleitos em 2024; a Caravana União Brasil, que acontece em vários municípios para formar seus quadros; o Jovens pelo Brasil, encontros para mobilizar e formar jovens lideranças que acontecem também em eventos pelo país; e os eventos do Defesa Lilás, de natureza semelhante aos 2 anteriores, focados em propostas específicas para as mulheres. Há de se destacar também alguns eventos temáticos, como os sobre saúde e educação, ocorridos em Salvador;
  3. Publicações (revistas, relatórios de formulação e newsletters com os resultados das pesquisas e eventos): o setor de publicações da Fundação Índigo está mais direcionado para materiais temáticos de formulação, como os guias Como Montar um Plano de Governo e ESG – Construindo Cidades Mais Sustentáveis. Apesar de não possuir revista ou newsletter, conta com um blog, onde suas atividades são atualizadas;
  4. Formação (cursos e programas de formação para suas lideranças e/ou cidadãos em geral, sobre os conjuntos de doutrinas orientadoras do partido e boas práticas de gestão/governança): esta é a modalidade de atuação em que a Índigo mais concentra seus esforços, junto com os eventos, com os já citados cursos Jovens Índigo, Defesa Lilás, Melhores do Brasil, o MBA sobre Segurança Pública e um destaque especial para o curso de formação de candidatos para as Eleições 2026, onde todo o conjunto de agendas separadas ganha forma como proposta nacional do União Brasil;
  5. Arquivos de memória (acervos organizados sobre o histórico da instituição, proposições de lideranças do partido e/ou sobre as trajetórias destas personalidades simbólicas): devido ao seu pouco tempo de história, realmente não existe uma referência. De qualquer forma, seria interessante reconstruí-la a partir da trajetória dos 2 partidos que formaram o União Brasil, o DEM e o PSL, um movimento de rearticulação da direita democrática cuja “cereja do bolo” é a Federação União Progressista;
  6. Mídia e tecnologia (ferramentas digitais que permitam acesso aos conteúdos anteriores, como “esforço de comunicação e difusão”, concretizando conexão com filiados e sociedade em geral): a Fundação Índigo divulga suas ações e a atuação das principais lideranças do partido em seus canais no Facebook, Instagram, LinkedIn e no Youtube, este último com um pouco mais de defasagem.

É facilmente explicável a concentração em cursos de formação na Fundação Índigo, dado que o União Brasil tem apenas 4 anos de existência e ainda passa por um processo de formação, posto que neste período de tempo já articulou a Federação com outro partido de linha semelhante, o Progressistas. De qualquer forma, seus conteúdos apontam para uma agenda liberal no que tange à economia, com um leve viés conservador quanto aos costumes e, nestes termos, compromissos com o Desenvolvimento Sustentável e boas práticas de Governança. Aliás, sobre esta última pauta, disponibiliza em seu site um Portal da Transparência, onde constam, desde 2025, balancetes e balanço de gestão, Estatuto, estrutura organizacional, fornecedores, recursos recebidos do Fundo Partidário e a prestação de contas; em alguns casos, apresenta também dados de 2024, quando efetivamente passou a representar de forma plena o União Brasil (pois antes era originária do PSL).

 

Cenários futuros possíveis para a Fundação Índigo

Enquanto Fundação Partidária do PSL, fundada em 2017, a Fundação Índigo passou já em 2019 por reestruturação capitaneada por Marcos Cintra, após o rompimento do partido com o então presidente Jair Bolsonaro. Depois, entre 2021 e 2023, balanceou a linha programática da fusão entre sua gênese e o DEM, para começar a dar forma às propostas do União Brasil. Agora, pode entrar em um novo processo de adaptação e alinhamento com o órgão de formulação e formação do Progressistas, a Fundação Francisco Dornelles, que será tratada no próximo artigo desta série, junto ao próprio partido a que pertence, como foi dito aqui no início, dentro das linhas gerais da Federação União Progressista.

Seria muito interessante se, conforme sugere a abordagem do estudo da UFBA que orientou este panorama do União Brasil, a partir da “Federação” esta coalizão de forças assimilasse em sua identidade o real histórico do processo político que reúne, desde a fragmentação da direita no início dos anos 1980 até sua nova forma, veementemente comprometida com os valores da Democracia Liberal. A capacidade das lideranças, agora mais agregadas do que nunca, de amadurecer seus objetivos e aperfeiçoar suas estratégias na Esfera Pública seria uma demonstração disso. Outra demonstração é, a partir de um espectro de centro-direita, dialogarem tanto com a direita mais idiossincrática quanto com governos de esquerda, de modo dialógico e construtivo, cooperativo, sem abrir mão da capacidade de “contestação pública”.

De um modo geral, há bastante coerência entre o momento de construção em progresso desde 2022 e o conteúdo da Fundação Índigo, mesmo que ainda na expectativa de uma agenda consolidada, mas com produção e divulgação constantes de conteúdo. Ao mesmo tempo, trata-se de um partido com protagonismo, do nível local ao nacional, coerente com seus “Princípios e Valores”, mas ainda imerso em um processo de aglutinação da centro-direita liberal e democrática: há 4 anos surgiu de uma fusão, e neste ano estabeleceu uma federação que reúne forças que não estavam tão vinculadas desde os anos 1980. Independentemente de qualquer movimento que faça na conjuntura eleitoral deste ano, possui elementos para sistematizar um projeto para o país, aprimorando sua agenda divulgada no anúncio de sua oficialização pelo TSE. No próximo artigo da série, tratarei de como o Progressistas está se posicionando neste tabuleiro. 

Até lá! 

Marcos Rehder Batista, pesquisador do CEAPG - FGV e do CPTEn - Unicamp, foi coordenador de Formação e coordenador-adjunto de Articulação Política do Direitos Já! Fórum pela Democracia.

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