Breno Altman com Aldo Rebelo no Opera Mundi: 20 minutos e mais de 3 décadas
Breno Altman com Aldo Rebelo no Opera Mundi: 20 minutos e mais de 3
décadas
“… roda mundo, roda-gigante…”
Chico Buarque
Marcos Rehder Batista *
Muito especial começar fevereiro com a entrevista de Aldo Rebelo feita por Breno Altman, no programa “20 minutos”, no YouTube do Opera Mundi, acredito que o primeiro portal progressista ainda em atividade na internet brasileira, sediado no principal domínio digital de informação do país; definitivamente especial! Primeira segunda-feira deste mês do carnaval, quando o ano todo parece ir mostrando “como é que vai ser”, festa que em nossas tradições informais anuncia que as coisas vão começar de vez (ainda mais em ano eleitoral).
Especial pela qualidade dos dois que, inclusive, fez parecer mais um
debate, sem necessidade de mediador entre os dois, que uma entrevista, onde
fica nítido o apreço de um pelo outro. Uma ex-liderança do PC do B que saiu do
partido por não abrir mão do protagonismo da eterna e atual agenda
desenvolvimentista, com um jornalista que tenta manter na esquerda muitas
agendas que Aldo perdeu as esperanças de continuar vendo lá, como o
desenvolvimentismo e o fortalecimento de laços com parceiros estratégicos do Brasil,
como Rússia, China, mundo islâmico e a prioridade no Sul Global.
Ambos mantiveram a coerência em relação ao que representam hoje. Sem deixar de levantar questionamentos conhecidos de sua audiência, majoritariamente de uma esquerda tradicional que não perde o foco na justiça socioeconômica, em momento algum o entrevistador disfarçou a profunda admiração que cultiva em relação ao “entrevistado”. O pré-candidato à presidência, hoje uivando “em uma nova alcateia” (diga-se a verdade, junto a outros que igualmente há 10 anos também estavam em partidos de esquerda), em momento algum deu valor menor à sua trajetória, coroada até então pela marcante participação como ministro dos Governos Lula e Dilma (afirmando categoricamente que, se a presidente tivesse lhe pedido uma minuta de GLO, o faria prontamente), e que não foram suas ideias que mudaram, só não as viam mais como carros-chefe do campo de onde veio.
Começo por uma primeira questão que me chama a atenção, motivo,
inclusive, para escrever este primeiro artigo do ano: por que Aldo Rebelo
estava lá? Sim, porque é um público de quem o ex-ministro se afastou, que apoia
lideranças que hoje ele tece críticas… aliás, neste contexto de polarização
eleitoral, já defendeu algumas vezes o inimigo, é convidado para falar em
eventos e espaços criados para dar voz à direita, como Brasil Paralelo e
Revista Oeste. Para quem não entendeu o porquê foi convidado para nos presentear
nesta uma hora e quarenta do programa “20 Minutos”, comece assistindo pelos
últimos 15 minutos… dá para entender por que aquela cadeira ainda é dele…
Um último comentário sobre o clima no programa, considero importante
destacar que Breno Altman fez questão de priorizar questionamentos
constantemente levantados pela esquerda sobre a mudança dos atuais movimentos
de Aldo, como sua oposição ao Governo Lula III, seu passado marxista e sua
defesa da anistia para todos os envolvidos na turba que culminou com o “8 de
janeiro” de 2023. Inclusive, das várias perguntas e comentários feitos no chat,
alguns positivos (como os meus) e outros bastante críticos, ao final do
programa o “entrevistador” só mencionou críticos. Pessoalmente, não se trata de
parcialidade militante, mas de honestidade em relação aos próprios
posicionamentos do fundador do Opera Mundi e aos atores políticos que fazem o
cotidiano do portal eletrônico; Altman mostrou realmente toda a sua envergadura
intelectual, política e pessoal.
Entre questões envolvendo os militares, política ambiental, o
tratamento dado aos povos indígenas, pode-se dizer que a tônica concentrou-se
em qual estratégia de desenvolvimento deve-se defender para termos um país mais
competitivo e justo, sobretudo o papel dos complexos agroindustriais neste
processo. É natural que o agora presidenciável tenha sido questionado
recorrendo-se a visões críticas da esquerda em relação ao agronegócio, mas isso
foi refutado durante o programa, e realmente é uma resistência contra a grande
produção rural superada, tanto por alguns dos maiores economistas que dão o tom
na esquerda quanto pelo próprio programa Nova Indústria Brasil, mais
contundente conjunto de ações federais para a retomada da atividade de
transformação e do desenvolvimento.
Rebelo pontuou a gigantesca cadeia de valor envolvida pelo agronegócio,
ressaltando que boa parte das atividades industriais nos grandes centros produz
insumos e equipamentos para o campo, como caminhões, máquinas agrícolas, carros
e caminhonetes, e ao que citou pode-se somar tecnologias de interação
machine-to-machine (base para a Indústria 4.0, que deu seu grande salto no
Brasil primeiro nas grandes lavouras, depois no chão de fábrica). Impulsiona
não apenas a produção industrial, mas gera muitos empregos indiretos em
serviços e inovação tecnológica[i],
sendo um dos pouquíssimos setores onde o Brasil, sob liderança da Embrapa,
inova em patamares próximos aos Estados Unidos e à China, e com muito menos
subsídios que seus principais concorrentes, como estes dois e a União Europeia.
Ano passado mesmo publiquei um artigo[ii]
no próprio Opera Mundi sobre setores importantes da esquerda e do atual governo
que estão compreendendo a importância do agro para nosso desenvolvimento;
inclusive, foi republicado pela Fundação Maurício Grabois, do PC do B, e
apoiado por Evaristo de Miranda (40 anos de Embrapa), referência nacional em
agropecuária que é colaborador mensal na mesma “Fundação”.
Entre os principais economistas que pautam a agenda da esquerda, no
Novo Desenvolvimentismo, liderado por Bresser-Pereira, há trabalhos no mesmo
sentido, como os de Nelson Marconi, ressaltando o potencial do agronegócio no
desenvolvimento de biotecnologia e de energia limpa, e sinalizações de Paulo
Gala – provavelmente a maior referência desta escola em economia da organização
industrial – no mesmo sentido[iii].
Na Escola Econômica de Campinas, do social-desenvolvimentismo da Unicamp, há
mais de uma década admite-se o agronegócio como um dos principais vetores para
um Projeto Nacional de Desenvolvimento, como pode-se confirmar em trabalhos de
Ricardo Carneiro e Luiz Gonzaga Belluzzo; este último chegou a organizar um
livro exclusivamente sobre como as chamadas commodities podem impulsionar o
desenvolvimento[iv],
contando entre os colaboradores com José Roberto Mendonça de Barros.
No Nova Indústria Brasil[v],
das 6 missões setoriais prioritárias para a retomada da atividade industrial
dentro de parâmetros de sustentabilidade (por isso “neoindustrialização”, em
novos termos, e não “reindustrialização”, nos termos tradicionais), 2 estão
diretamente ligadas ao agronegócio: a “Missão 1”, exclusivamente focada nas
cadeias de valor em torno das atividades rurais; e a “Missão 5”, que em boa
parte também aborda produção e manejo de produtos naturais. Ou seja,
praticamente 1/3 do atual projeto de desenvolvimento produtivo gira em torno
dos complexos agroindustriais, para não contar que nas outras 4 missões estão
envolvidas atividades dependentes ou conectadas às commodities: o complexo de
saúde, que envolve zoonoses (Missão 2); construção civil, que envolve
matéria-prima (Missão 3); economia digital (Missão 4), posto que a Indústria
4.0 teve seu grande salto no Brasil com a agropecuária de precisão; e Defesa
Nacional (Missão 6), que envolve monitoramento, cujos sistemas se fortaleceram
muito com a demanda da agropecuária de precisão.
Em outras palavras, pode-se dizer que, enquanto ideia, não há forte
descompasso entre o que defende Aldo Rebelo, enquanto oposição ao atual governo
federal, e algumas agendas de desenvolvimento dentro da própria esquerda; tanto
dentre alguns dos principais economistas influentes no campo político quanto
dentro do próprio governo. A discordância evidente pode ser a intensidade com
que estas questões assumem no debate público e a forma como o grosso da atual
esquerda lida com seus adversários políticos, pois muitos que nos governos Lula
I e II fizeram destes 2 mandatos uma marca indiscutível na história brasileira
hoje estão do outro lado... a memória é muito curta. Rebelo conseguiu deixar
bem claro que, apesar de existirem pontos de convergência, sua pré-candidatura
faz todo o sentido, tanto como um resgate das agendas que realmente dão
competitividade para nosso setor produtivo, o que abre diálogo com a direita
empresarial produtiva (não a rentista), quanto com a esquerda, pois não se
perde em questões que não ajudam em nada a botar comida na mesa do trabalhador
a preços acessíveis (algo que só escala pode oferecer), que realmente é o que mais
importa.
Também não tem medo de reconhecer que quem mais precisa ser protegido
dos bandidos é quem fica no ponto de ônibus sem a visibilidade da luz do sol, é
o trabalhador, e por isso não tem receio de defender combate severo contra o
crime nas ruas. Nisso também encontra ressonância na esquerda, como no prefeito
de Maricá e atual vice-presidente do PT, Washington Quaquá, apoiado por um
grupo absolutamente relevante no partido e que apoia várias ideias pautadas por
Aldo.
Em resumo, no caso de Aldo Rebelo, ele estar na mesa do “20 Minutos”
não remete à máxima de que “o mundo não gira, capota”… o mundo gira sim, uma
hora determinadas agendas fundamentais, mesmo que esquecidas na cortina de
fumaça do debate público, voltam. A realidade escancara o que realmente é
relevante, e também o impacto real de cada preocupação no todo da população de
um país. Se esta campanha tende a ser tornar um incômodo para vários setores
mais recentes da esquerda, seria absolutamente tacanho chamá-la de
"jumento na sala"... no mínimo, se trata de um belo garanhão Puro
Sangue Lusitano, da Coudelaria Alter Real. Faz todo sentido os dois estarem
ali, há uma cadeira para o ex-ministro naquele espaço, assim como sua
pré-candidatura vai muito além de competir por um cargo, inclusive para muita
gente de esquerda. Em todo caso, se for assistir a esta edição do “20 minutos”,
comece pelos últimos 15 minutos.
Segue o link para a entrevista:
https://www.youtube.com/watch?v=MxhqbAl9r0A
[i]
- Sobre o papel dos complexos agroindustriais no impulsionamento da indústria, inclusive
a de biotecnologia, escrevi um artigo sobre a Carta IEDI 859, de 2018,
elaborado por José Roberto Mendonça de Barros, onde atualizo os dados atualizados
até 2023. Link para o artigo: < https://rbsustentabilidade40.blogspot.com/2023/05/por-que-nao-o-protagonismo-do-agro-na_9.html
>
[ii]
- O artigo “Segurança alimentar e um novo espaço para o agronegócio no
desenvolvimentismo”, publicado originalmente no Opera Mundi no link < https://operamundi.uol.com.br/opiniao/seguranca-alimentar-e-um-novo-espaco-para-o-agronegocio-no-desenvolvimentismo/
> e republicado com algumas modificações feitas pelo autor na Fundação
Maurício Grabois no link < https://grabois.org.br/2025/06/25/seguranca-alimentar-papel-do-agronegocio-projeto-de-desenvolvimento-da-esquerda/
>, teve o tom apoiado em artigo posterior de Evaristo de Miranda em < https://grabois.org.br/2025/07/14/fruticultura-brasileira-tarifas-de-trump/
>.
[iii]
- Em julho de 2022, em plena pré-campanha presidencial, Nelson Marconi publicou
o artigo “A Sustentabilidade como estratégia de desenvolvimento”, disponível no
link < https://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/rce/article/download/86167/81162
>, e Paulo Gala, que já havia abordado a importância dos complexos
agroindustriais na medida em que fossem capazes de produzir bens tecnológicos
para a produção agropecuária e alavancando a complexidade tecnológica de nossa
economia, escreveu sobre meu artigo apontado na nota anterior, em texto
intitulado “O caminho para a agroindustrialização”, que pode ser conferido no
link < https://www.paulogala.com.br/o-caminho-da-agroindustrializacao/
>.
[iv]
- O relatório de Ricardo Carneiro (2012)
pode ser lido em < https://pesquisa.ie.unicamp.br/artigo/commodities-choques-externos-e-crescimento-reflexoes-sobre-a-america-latina/
>, e o artigo de Luiz Gonzaga Belluzzo que melhor esclarece o papel
fundamental do agronegócio como pilar do desenvolvimento nacional, publicado em
2015 em coautoria com Júlio Gomes de
Almeida, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, 2006/7,
que pode ser lido em < https://www.researchgate.net/publication/294581195_Austeridade_para_quem_Balanco_e_Perspectivas_do_Governo_Dilma_Rousseff_organizado_por_Luiz_Gonzaga_Belluzzo_e_Pedro_Paulo_Zahluth_Bastos
>. Já o livro de 2014 exclusivamente sobre commodities e desenvolvimento,
organizado por Belluzzo, Frischtak e Laplane, está disponível em < https://www.eco.unicamp.br/colecao-geral/producao-de-commodities-e-desenvolvimento-economico
>.
[v]
- A versão revisada do Plano de Ação do Nova Indústria Brasil-NIB pode ser
conferida em < https://www.gov.br/mdic/pt-br/composicao/se/cndi/plano-de-acao/nova-industria-brasil-plano-de-acao-2024-2026-1.pdf
>


Comentários
Postar um comentário