Moderação: um trevo de encontros, sem colisões (pub em 22/9/2022)
Moderação: um trevo de encontros, sem colisões (pub em 22/9/2022)
ou
Para a imunização contra o
apocalipse dos lobos veganos
Marcos Rehder Batista
Memorial do debate que participei com Madeleine Lacsko, promovido
pelo Movimento Trevo (Niterói, RJ), em 13/8/2022. Link original:
No último sábado, 13 de agosto, tive honra de tomar parte na Primeira Plenário do “Trevo, Movimento Moderado”. No meio da mesma semana fui convidado por Juliana Benício, candidata à prefeitura de Niterói em 2020 (NOVO) e presidente do movimento, que conheci no “IX Ato do Direitos Já! Fórum pela Democracia”, uma das mais gratas surpresas que tive nas últimas andanças no meio políticos. Até então a o evento contaria com ela e Madeleine Lacsko, referência no jornalismo político brasileiro, que já foi assessora de imprensa na ALESP e no STF, além de atuação internacional pela Unicef. Enorme responsabilidade dividir a tela com as duas, para tratar de um tema tão traiçoeiro: democracia versus populismo.
Antes de entender o que é o “Trevo, Movimento Moderado”, entender de onde vêm seu conceito de “moderação” e mergulhar de vez no que esta iniciativa reflete uma urgência dos tempos atuais, começo por duas perguntas que permearam as falas da anfitriã e da convidada, respectivamente: Que dignidade humana o fazer político pode trazer nestes tempos de inimigos? e Que saída honrosa podemos oferecer para quem muda de opinião (ou mesmo continua com pensamento oposto ao nosso)? Para que as pessoas se permitam a autocrítica até o ponto de mudar de opinião é preciso muito mais do que a crítica alheia, condenações eternas, sema garantia da dignidade humana nem sempre a coragem é possível. Que dignidade humana nosso ambiente político pode garantir para quem repensa e decide fazer melhor, mudar, ouvir, repensar? São perguntas necessárias para um contexto em que escolhas e rejeições quase se equivalem, tanto para quem resolveu “uivar numa nova alcatéia” como para quem teme não haver existência caso perca.
A grande orientação formal do Trevo é a resolução 72/130 das Nações Unidas, aprovada pela quase totalidade da Assembléia Geral em 2017 (apenas EUA e Israel foram contra), que estabelece o dia 16/5 como “Dia Internacional da Convivência em Paz”. Defendendo o princípio da Moderação como antídoto contra a radicalização das disputas políticas, reforçando que apenas a paz, a segurança, o desenvolvimento e os direitos humanos podem promover as liberdades que a humanidade tanto busca. Apesar de estreita e declaradamente vinculada ao ODS 16 da Agenda 2030, o documento se conecta aos 17 objetivos. Uma coisa interessante chama atenção entre os que discursaram em defesa da resolução: com exceção do Canadá, todos países que protagonizam radicalismos ou marcados por democracias questionáveis, como Cuba e China... talvez porque sofram na pele, e não conseguem sair deste ciclo vicioso, o que pode ser uma lição para o Brasil atual (nosso representante também discursou).
Este debate sobre moderação vem de séculos, páginas e páginas foram escritas sobre nossa sina de sermos “o lobo” de nossos iguais. Aurelian Craiutu, cientista político da Universidade de Indiana e uma das referências para o entendimento da idéia de moderação do movimento, atenta para a dificuldade que todos que se põe na esfera pública como moderados, acusados de covardia ou oportunismo. De fato, não se pode negar a agressividade como parte da natureza humana, e para baixá-la a níveis construtivos o autor aponta 7 atitudes fundamentais de coexistência entre os diferentes: realismo; não aceitar argumentos simplistas (a realidade é diversa, nunca simples); pluralismo; abertura à mudanças; honrar compromissos (inclusive quando incorrem em concessões, desde que dentro dos princípios democráticos políticos e sociais); tolerância (aceitar o outro sem negar a si) e; diálogo (garantir a todos direito de expressar seu ponto de vista). Em suma, sustentar suas conclusões e garantir espaço para tomar parte no diálogo, para si e para todos.
Craiutu admite que este tipo de postura, apesar de viabilizar o amadurecimento democrático a durante os governos e as decisões parlamentares, raramente é possível no calor das disputas eleitorais e nas lutas de movimentos sociais. Mas então estamos fadados a um mês e meio ou dois a um jejum da racionalidade?
Este é o ponto em que as questões imersas no que Juliana e Medeleine disseram podem nos tirar do mar em ressaca como “salva-vidas” de nossa democracia: que dignidade humana eu tenho para oferecer para os adversários? Que saída honrosa podemos garantir para quem muda de opinião ou perde as eleições? Condenar quem perde ao esfacelamento só dificulta qualquer autocrítica; as pessoas usam qualquer recurso por sobrevivência (por mais imoral e danoso que seja). O que eu tenho a oferecer para o outro que não me apoiou além da desgraça?
A construção democrática cotidiana depende que cada uma das partes seja atendida e sinta isso com clareza, perdendo ou ganhando. A vitória nas urnas não pode depender da destruição alheia, da criminalização da política, do denuncismo barato (geralmente sem flagrante e sem direito a recurso, nos sentidos concreto e figurado), de alimentar a repulsa contra os concorrentes. Como alguém pode resolver apoiar um ex-adversário apontando o dedo e repetidamente dizendo “Eu sei o que você fez no verão de 2016” ou “na primavera de 2018”? Como alguém pode se colocar como “centro moderado” apregoando “nem um, nem outro”? Bem abaixo da moderação, isso é o sectarismo “ao quadrado” (não basta rejeitar veementemente 1, preciso rejeitar 2... passado e presente mostram que este é o caminho da solidão).
Não se trata de negar a natureza das disputas, nem que a política é, em essência, disputa de poder. Muito além de um amontoado de lobos veganos, que só uivam e esquecem da fome, estamos falando de parar de enterrar os caninos na própria espécie humana e focar no alimento. Disputar a comida não significa dizimar concorrentes; isso não vale para os lobos, não pode valer para nós. Se não entendermos isso, assistiremos ao apocalipse do bom senso, o fim da esperanças para a dignidade humana; que seja apenas um “eclipse da razão”.
Felizmente, o que vi sábado passado não reflete o talvez excesso de fatalismo deste relato. Em todo caso, ser moderado não significa indiferença ou leveza, não se estampa em expressões faciais complacentes ou nem na neutralidade; acima de tudo, é ser radicalmente democrático, defender este valor até as últimas consequências, garantir a qualquer custo o espaço de todos os nichos que compõem nosso tecido social, hoje tão esgarçado (quase rasgado mesmo). Mas, numa democracia na UTI, é de pessoas como Juliana e Madeleine que precisamos: mãos certas para a moderação.
Obrigado às duas
Vídeo da Plenária: https://www.facebook.com/movimentoTREVO/videos/716072226862168
Texto de Aurelian Craiutu: https://www.niskanencenter.org/the-radicalism-of-moderation/
Link sobre a Resolução 72/130 de 2017, que estabelece o “Dia Internacional da Convivência em Paz”:
https://www.unesco.org/en/days/international-day-living-together-peaceSobre Craiutu, também recorri a este autor em artigo publicado 11/10/2022, no Opera Mundi. Segue a referência para o artigo "Lula-Alckmin 2022 e um novo pacto político no campo progressista"

Comentários
Postar um comentário